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Como desafogar a coletividade?

por Renan Soares.

 Este lugar privado permite igualmente outras manipulações indispensáveis ao bom funcionamento das galerias e dos museus. Ele é, por exemplo, o lugar onde o crítico de arte, o comissário de exposições, o diretor ou conservador de um museu poderão vir escolher tranquilamente, dentre as obras presentes (e apresentadas pelo artista), aquelas que hão-de figurar nesta ou naquela exposição, nesta ou naquela colecção, nesta ou naquela galeria, neste ou naquele conjunto de obras [...] Assim sendo. o ateliê é também uma loja. É lá que vamos encontrar o prêt-à-porter a expor. (BUREN, 1976)

[...] percebemos que assim como a produção contemporânea é plural, também se mostra o ateliê contemporâneo como possibilidades múltiplas: sala de aula, residência temporária, espaço expositivo, moradia, galeria de arte, arquivo, local de trabalho não são usos excludentes, de forma que um mesmo espaço pode funcionar com inúmeras dessas funções apontadas. (PEQUENO, Fernanda, pg 71, 2017)

Ao analisar o contexto de surgimento dos coletivos, não se pode deixar de levar em consideração o modismo criado em torno desse tipo de iniciativa ao longo dos últimos anos, que faz com que a reunião de um conjunto de artistas em torno de uma proposta de trabalho comum possa parecer, por si só, uma estratégia de atuação interessante a jovens profissionais, no sentido de acusar uma atualização em relação ao debate artístico contemporâneo, de modo a atrair a atenção da imprensa especializada, de curadores e de produtores culturais ávidos por novidades.

       A Rafa e a Kourinão estão escrevendo em Pelotas, habitat propício para umidecer de sentidos as páginas deste livro digital. Aqui em São Paulo ainda não choveu por esses dias. Estou escrevendo faz algumas semanas, e tudo que observo pela janela é o clarão do sol. Talvez por isso minhas palavras sejam mais secas do que as delas. Somente por isso. Coincidentemente retomo aqui esse parágrafo, depois de alguns dias. Para dizer que hoje o dia está cinza, como a São Paulo que conheço, e que pelo menos garoa cai. Me sinto intimado por isso a molhar algumas palavras, já que pretendo tratar de um lugar que considero como um terreno alagadiço.

        Depois da abertura da primeira exposição do Corredor 14,  a excelentíssima Renata Requião nos contou que tinha escrito um texto e que pretendia publicar no jornal Diário Popular. Ela nos pediu uma foto da fachada do Corredor, para divulgação, ficamos muito felizes, imagina só, sairíamos no jornal. O Higa então foi até o Corredor em um dia de chuva, esperou o clima dar uma amenizada, tirou a foto e depois nos enviou no grupo. 

         Quando digo um terreno alagadiço, não é pelo simples exercício poético, mas por que é verdade. Sempre depois de uma chuva, a nossa fachada fica alagada, às vezes até as nossas paredes. A poça d’agua que se acumula em frente a casa demora um pouco para secar, e nos dias de sol eu posso apreciar as sombras no teto da primeira sala, que se formavam pelo reflexo dos raios de sol na água. 

         Essa poça d’água que se forma depois de cada chuva, revela as qualidades desse terreno alagadiço em que o Corredor 14 se situa. Um terreno alagadiço que diz respeito à cidade, que submerge a cada chuva, provocando um afogamento das produções e funcionamento do circuito de arte local. Entender esse terreno alagadiço e nosso ateliê me demandou um certo tempo de experiência e exigiu reflexões, para apreender aquilo que estamos fazendo nesta cidade, o que nos move e consequentemente movimenta o espaço?

         Quando li o catálogo da exposição Ir até aqui, do artista Marco Buti, organizado por Alberto Martins, encontrei a seguinte frase “Ir e ficar são uma escolha, mas passar não”. Destrinchei horas dos dias pensando sobre como as minhas escolhas de ir ou ficar, todas elas, me fizeram passar. Pensando no Corredor 14, sempre o imaginei como uma passagem, um intervalo, meio, entre, não é ir e nem ficar é passar. Por coincidência encontrei em um dos textos da pesquisadora, Marisa Flórido, as seguintes palavras “Entre a origem (na qual ecoa a promessa de uma revelação da essência artística) e a margem (como o intermediário que inscreve a obra em um campo, em uma circunstância), o ateliê é uma passagem.” 

         E recorrendo a essa interlocução com Flórido, que se debruça sobre a História da Arte para traçar o perfil do ateliê de artista, deparei com minhas próprias reflexões a respeito do que seria o ateliê para mim. E coincidentemente, ou não, chegamos a esse denominador comum que consiste em perceber a essência deste lugar entre a intersecção de uma coisa e outra, o meio, o passar, uma passagem. 

         Se aprofundando um pouco mais no entendimento do ateliê de artista, Flórido apresenta trechos do texto, A Função do Ateliê, de Daniel Buren, para refletir sobre o ateliê também como uma moldura habitável, a primeira moldura do trabalho, que se constrói nos domínios da margem. E que foi durante muito tempo tido como espaço do sagrado, da concepção da obra de arte, onde a magia da criação acontece. “Ao ingressar no ateliê, espera-se penetrar o espaço do sagrado da criação artística, testemunhar o momento intrigante da epifania da obra, flagrar o artista em sua secreta intimidade.” (pg 17, FLÓRIDO, 2002). Logo, podemos pensar o espaço do ateliê sobre a esfera que envolve um certo mistério da criação, desvelar como a obra é concebida.

         Embora o ateliê não se resuma a isso, suas possibilidades e sentidos, se modificam ao longo do tempo. Os ateliês antes cultivavam a solidão dos artistas, e como nos aponta Buren, eram lugares importantes para a manutenção e funcionamento de galerias e museus, com breves visitas de curadores, marchands, críticos, galeristas e colecionadores interessados em adquirir obras para uma exposição ou coleção. 

         Com o tempo o ateliê passou a ser compreendido de outras maneiras. Para artistas como Arthur Barrio o ateliê eram seus caderninhos de anotações, para outros como Tunga bastava uma rede e menos que isso, para Beuys, era suficiente sua cabeça. Em todo caso, o ateliê consegue se resumir entre um espaço físico e um espaço mental. Entre uma tela de computador até a cidade, ou mesmo uma sala, um escritório, um galpão. No meu caso um corredor. 

         Olhemos para a ideia de ateliê como algo que se movimenta e se amplia dentro do campo, acompanhando o desenvolvimento tecnológico, o surgimento de novas linguagens, a expansão das já existentes e as mudanças das relações sociais e principalmente do sistema das artes. O ateliê continua sendo um primeiro limite da obra, uma moldura, o espaço do sagrado, mas também pode ser mais, sem se restringir ao espaço físico e fixo, deixando de ser apenas espaço de produção da obra (sua origem), tornando-se também um espaço de recepção e difusão (seu destino), assumindo funções de espaço expositivo. Assim como nos aponta outra pesquisadora Fernanda Pequeno. “Se o ateliê não é mais origem ou destino da arte, ele deve ser entendido como o entre, o espaço intermediário.” 

        E novamente localizamos o ateliê como algo que é entre. Dessa maneira, o nome Corredor, escolhido apenas por uma questão arquitetônica, denota ao ateliê sentidos que coincidentemente implicam justamente na função que esse espaço assume. De passagem e intermediário, seja entre a produção e a recepção da obra, ou referencie nossa passagem e processo de formação como artistas, ou até mesmo aponte para relação entre os artistas e o público possibilitadas por esse espaço. 

         Uma vez que passamos a entender o ateliê como lugar de passagem, tanto do artista, como da obra e do público. Devemos agora nos ater como isso se dá enquanto um processo coletivo, quando o ateliê é composto e gerido por mais de um artista. Cabe dizer que o movimento de formação de coletivos e agrupamento de artistas é um processo contínuo no Brasil. No início os artistas se uniam por motivos mais nobres,  preocupados em questionar o sistema das artes e provocar uma ruptura dos paradigmas pré-estabelecidos da arte. Depois a coisa caiu num modismo, quando os coletivos passaram a ganhar maior visibilidade, pesquisadores e curadores começaram a se interessar mais e dar atenção, a esse movimento, a coisa se tornou comum. Diversos artistas começaram a se utilizar do artifício “coletivo” para se promover. 

         Aponto para isso, pois no Corredor 14, apesar de dividirmos o espaço físico, nós nunca nos entendemos enquanto um coletivo. Estabelecemos a concepção de que compomos um ateliê compartilhado. E nesse sentido trazendo um ponto de vista da pesquisadora Fernanda Albuquerque, nós compomos uma iniciativa coletiva de artistas e não necessariamente um coletivo.

         No Corredor 14 nunca quisemos ser chamados de coletivo, talvez isso não fosse um consenso entre todos, mas creio que havia um certo preconceito, ou mesmo um desejo maior por resguardar, cada qual, as individualidades em suas produções poéticas. A vontade de um coletivo, que produz obras coletivamente, nunca foi trazida por nenhum membro. Apesar disso estivemos sempre abertos a realização de projetos em coletivo, como por exemplo, exposições que envolvessem a curadoria dos nossos trabalhos, ou ações e atividades culturais dentro do Corredor.

         Um pouco distante dos motivos que antes fizeram nascer os coletivos, preocupados com questões referentes ao sistema das artes, nós apenas nos unimos para atender algumas demandas individuais, pelo menos a maioria de nós. Não pensávamos muito no sentido e no significado daquilo que estávamos fazendo, ao menos não discutimos isso com frequência. Digo isso, afim de não iludir o caro leitor a pensar que toda iniciativa coletiva por mais nobre que seja, esteja pautada em cumprir uma função social, ou mesmo a pretensão de ser resistência frente aos problemas presentes no sistema das artes.

          Um grupo de jovens artistas se reunindo com o objetivo de ter um espaço para trabalhar? Parece tão glamuroso e revolucionário! Mas é algo um tanto quanto corriqueiro, como aponta Pequeno:

 

 

 

         

 

 

 

        Assim como muitos outros jovens artistas em formação que acabam de ingressar no mundo das artes, víamos na possibilidade do ateliê apenas como uma maneira de nos incluirmos de alguma maneira nesse contexto. É o que todos os artistas fazem? Todo artista precisa de um lugar para trabalhar? Então é isso que precisamos também. E assim, narciscicamento nos encontramos, precisávamos alugar um espaço para trabalhar, não poderíamos cobrir as despesas sozinhos e por isso nos reunimos. Não existia uma meta, ou um plano maior nisso. 

         Mas, depois de dois anos de existência, aquilo que era um projeto pautado nas ambições e anseios de sete jovens artistas em formação, buscando apenas um espaço para trabalhar e experimentar suas poéticas, acabou se tornando um lugar de passagem e intermediário para outras pessoas. Mesmo não sendo nossa intenção, o Corredor 14 acabou de fato se tornando um lugar de encontro, entre artistas, público, professores, pesquisadores, curadores gente interessada em ver e discutir arte contemporânea. 

         Mal sabíamos que ao abrir as portas do nosso ateliê, propiciando esses encontros, estávamos na verdade dando vazão, abrindo um canal de escoamento para o alagamento das produções culturais na cidade de Pelotas. Se antes as possibilidades de encontro com arte contemporânea, de circulação de artistas, residências, eram escassas nessa cidade, nós passamos a cumprir um papel de manutenção e construção de possíveis mundos, de ocupação e, por que não, de resistência. Ainda que alagadiço, Pelotas é também um terreno fértil, onde o Corredor 14, assim como outros espaços de arte autogestionados que já existiram aqui, podem brotar.

        Dito isso, sigo essa escrita pensando em trazer um pouco da minha perspectiva do Corredor 14, com olhar de quem está dentro, e foi se descobrindo à medida em que foi descobrindo as qualidades desse ateliê. Nesse sentido no texto intitulado, Reflexos, trago algumas das minhas confrontações em relação ao Corredor, abordando um pouco desse processo inicial, em que enxergava o ateliê como trampolim para o circuito de arte, isso porque, nas comparações que estabeleci entre outros ateliês, percebia muito essa possibilidade. No segundo e último texto, apresento um pouco da minha mudança de perspectiva em relação ao Corredor, nessa escrita, não estou tão preocupado com as individualidades, mas sim em como partimos delas para produzir e construir coletivamente, e como isso transborda e deságua em outras pessoas. 

[...] aparece como uma forte opção para jovens artistas, o ateliê coletivo. Motivados por uma série de fatores, tais como: necessidade de um local de trabalho distinto do de moradia, divisão do aluguel e das contas para barateamento dos custos, busca de um diálogo e de uma exterioridade para o trabalho, e também de um espaço para exercício, experimentação e armazenagem das obras, idéias e projetos, o espaço coletivo mostra-se, muitas vezes, como a melhor solução para atender a estas demandas. (SILVA, Fernanda Pequeno, pg 72, 2017)

Alagadiço

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Reflexos

       Recuo alguns anos atrás, quando os braços ainda tinham forças e as braçadas eram precisas, sem riscos de afogamento. Nossa primeira reunião - no Corredor 14 - foi na calçada de frente a ele, sentei em uma das cadeiras que os meninos - Higa, Marcelinho e Davicentinho - tinham achado na rua, cadeiras de escola.  Lembro da felicidade deles dizendo que haviam encontrado “um quadro negro enorme, umas cadeiras e uma mesa alta” e que serviriam para usarmos no ateliê - nós nem tínhamos atelie ainda quando eles acharam essas coisas. Eles carregaram esses móveis pela rua até a casa de um deles. Nos mandaram fotos e na nossa primeira reunião estava eu lá sentado em uma dessas cadeiras. Ansioso por essa reunião, pois iriamos definir coisas, ou ao menos tentar, eu queria muito ouvir as ideias de todos. 

        Ali começava a empreitada de sete aspirantes ao estrelato, sete Narcisos espelhando suas belezas no mundo, embora muito incertos e inseguras com relação ao que queríamos abrindo um atêlie, espaço expositivo e tudo o mais que nos suprisse. Durante o percurso, busquei em comparações e definições de outros artistas e ateliês, vislumbres do que poderíamos nos tornar por meio do Corredor 14.

          Discutimos muito sobre o Casa Sete, talvez nós nos atraímos mais pela numerologia do que pela sua dinâmica de funcionamento. Entre as conversas e piadas, sentia que o queríamos mesmo era ser o novo Casa Sete, duas vezes mais — Corredor Catorze — ter o mesmo sucesso que os cinco tiveram, um sentimento muito corriqueiro para artistas jovens e ingênuos como nós éramos em pleno segundo ano de formação acadêmica. 

        Depois descobrimos histórias mais próximas, artistas de Porto Alegre que anos antes tinham feito muito sucesso com Ateliê Subterrânea. Até mesmo essa escrita, esses relatos têm muita influência do Notas Entrópicas, trata-se de marcar nossa existência. Durante um tempo falávamos muito do Subterrânea, e de como nossa rota para o sucesso era estourar primeiro em Porto Alegre, ganhar visibilidade e ficar conhecidos por lá, assim como aquele espaço. Como disse, éramos jovens artistas ingênuos, agora em pleno terceiro ano de formação. Ao menos eu passei mais tempo almejando o futuro, ao invés de olhar com mais atenção para os processos que alguns ateliês passaram.

       O último ateliê que figurou muito tempo em nossas conversas foi o Ateliê397, não lembro como chegamos nele, mas em algum momento de 2018 estávamos lá, cinco de nós, sentados em uma mesa conversando com, Thais Rivitti, uma das gestoras, sobre as mais diversas curiosidades de se ter um ateliê, como manter e como elas faziam por lá. Eu queria dar um passo além com o Corredor, para que ele não fosse apenas o nosso espaço de trabalho, mas também nossa vitrine, e achei que poderia conseguir algumas dicas. Acho bom contar isso aqui, por que na imaginava na nossa rota de sucesso, depois de estourar em Porto Alegre, tínhamos como destino São Paulo. O plano era ir até o 397 e propor uma troca, eles fariam uma exposição do Corredor 14 lá e nós faríamos uma com os artistas de lá, por aqui. Já previa as manchetes. Mas o ânimo da Thais Rivitti não nos foi muito convincente, abortamos o plano, aguardando uma nova chance. 

       As comparações que fui estabelecendo entre esses ateliês, que em algum momento apareceram em nossas conversas, serviram para perceber que durante muito tempo, o nosso, ou ao menos o meu objetivo com o ateliê, era conseguir visibilidade dentro do sistema das artes, uma promoção que me abrisse caminhos de inserção no circuito e que me desse contados numa ânsia de desejo e ingenuidade. Como quando Narciso admira seu reflexo na água, existe um desejo e uma ingenuidade que lhe faz esquecer de todo resto e assim ele se afoga. Esse afogamento tornou meu passar pelo Corredor mais exaustivo, por diversas vezes cansei tentando dar braçadas contra a correnteza.

        Não sei se muito desses anseios eram só meus, ou eram compartilhados pelos meus colegas, mas assim como apontado mais acima, formar um ateliê com outros artistas é também tido como uma estratégia para se promover e conseguir visibilidade. Claro que não fizemos o que fizemos tento sempre esse objetivo, na maioria das vezes nem sabíamos o que estávamos fazendo e onde queríamos chegar, mas inegavelmente esperávamos que essa visibilidade fosse uma consequência de nossas ações.

         Isso ficou bem aparente quando fomos juntos para São Paulo pela segunda vez. Para a Residência Corredor encontra Vão. Essa residência, na verdade foi uma troca entre ateliês, como almejava fazer na época em que fomos ao 397, mas que aconteceu com o Vão, as artistas Silvia Jábali, Maria Luiza Mazzetto e Thais Stoklos passaram pelo Corredor 14 durante uma semana, o que nos movimentou durante sete dias, num sentido muito positivo para todos, cada uma delas conta um pouco sobre suas experiências em seus relatos.

          Essa viagem era o nosso momento de brilhar! De mostrar nosso trabalho em São Paulo e de conhecer artistas reconhecidos como Carla Chaim, Nino Cais e Marcelo Amorim, que coordenam o grupo de acompanhamento Hermes. Estávamos novamente eufóricos, determinados a realizar cada um um novo trabalho para uma exposição.

         Um contraste curioso se revela aqui, quando as gurias do Vão vieram para a residência, tinham proposto entre elas, que trabalhassem juntas, que fizessem um trabalho em conjunto. Elas passaram dias tentando decidir o que fazer, cada uma tinha uma ideia que era complementada pela outra e também por nós do Corredor. Elas que possuíam uma dinâmica de funcionamento, totalmente diferente, em um ateliê um pouco mais enrijecido, com relação à  divisão de espaço entre os artistas, queriam acima de tudo uma experiência coletiva. E nós do Corredor ao ir para São Paulo, propomos entre nós, que fariamos justamente o contrário, cada um com seu trabalho, para que os outros vejam a produção de cada um de nós. Por fim, a maior ironia desse acontecimento foi o que nos disse Nino Cais ao visitar a exposição “poderia dizer que são trabalhos do mesmo artista”.

        Eu lembro da cara do Higa ao ouvir esse comentário, depois conversamos e ele estava encucado, achou que não tinha nada a ver, o Marcelinho concordou. Não sei se hoje eles mudaram de ideia, quando conversamos eu fiz que concordava com eles, mas na verdade concordava com o Nino. Parecia mesmo que a raiz de nossos trabalhos era a mesma.

Porém o que mais me marcou dessa experiência é o quanto estávamos preocupados com os nossos trabalhos. No sentido de querer fazer algo para que os outros vissem, é claro que não desviamos de nossas poéticas para isso, se tem uma coisa a que todos somos fiéis são às nossas sombras, aos nossos trabalhos, sempre colocamos a arte em primeiro lugar.  Mas em segundo incorporamos Narciso, cheios de desejos e ambições. Queriamos ser vistos e ter nossos trabalhos reconhecidos, elogiados. Até porque não há nada de errado nisso, e arrisco dizer, que é um processo natural, ainda mais quando se está começando e pensando no próprio futuro. 

        Vejam que o Corredor 14, trata-se de uma iniciativa de estudantes de bacharelado em artes visuais, em anos iniciais de formação. Éramos, ou ainda somos, jovens que almejavam ser artistas, alguns, sonham, ou sonharam em ser grandes artistas, ser representados por galerias, participar de grandes exposições. Eu e Rafa já temos trabalhos planejados para o octógono da Pinacoteca de São Paulo. Guardamos muitos sonhos e principalmente delírios sobre o mundo da arte. E é esse, o rio em que nos vemos e por vezes nos afogamos.

       É nesse sentido em que penso no nosso começo e nessas experiências, como se fossemos todos Narcisos. Primeiro porque, nós desprovidos da beleza, almejamos a beleza vista nos outros. O que consistiu em uma tentativa de reprodução das coisas que observamos em lugares e que deram certo. De certa maneira nos guiamos e nos respaldamos pelas experiências de outros ateliês e artistas, nos espelhamos neles para pensar e fazer coisas no Corredor, que nos permitisse chegar onde eles chegaram. Em segundo porque, assim como Narciso ao olhar para os nossos próprios reflexos, nesse caso o que seriam nossas poéticas, deixamos de prestar atenção nas pequenas reverberações e ondulações na água que provocamos uns nos outros e em outros.

        Todavia Gastón Bachelard nos atenta em, A água e os Sonhos, que o narcisismo pode ser visto também como algo positivo. O jovem belo ao enxergar sua beleza no mundo, pensa “se sou belo é porque o mundo é belo e nele me espelho”. Ao observar o rio, ou mesmo a nossa cidade alagada, espelhamos nela todos nossos anseios como sete jovens vivendo suas primeiras experiências enquanto artistas, colocando todas as nossas  energias e desejos num espaço que pode vir a proporcionar coisas positivas no futuro, e acreditamos nisso, num certo grau de ingenuidade, mas também por observar outras possibilidades de mundo e em nós mesmos.

      Quero dizer com isso, que sim somos Narcisos, nós admiramos nossos reflexos, e estamos o tempo todo nos afogando, precisando dar braçadas fortes e seguir contra correnteza, somos inseguros, nos decepcionamos quando não somos selecionados para um salão, quando poucas pessoas visitam nossas exposições, quando um projeto não passa em algum edital, quando queremos dar passos mais largos do que nossas pernas conseguem. Mas acreditando em outras possibilidades de mundo, criamos o Corredor 14 . E esse ateliê foi um primeiro passo para nós, de independência e autonomia, onde gritamos para o mundo SOMOS ARTISTAS! Nele é possível delirar à vontade. Nele somos grandes artistas, não precisamos de galeristas e curadores pois nós mesmos nós representamos, agenciamos e produzimos nossas grandes exposições e somos reconhecidissimos pelos nossos amigos. 

         Portanto, lhes digo novamente, sim somos Narcisos, observamos nos alagamentos de Pelotas os nossos anseios, desejos e beleza. E a todo momento essas poças de água refletem também para nós tudo o que está ao redor. As vezes é preciso submergir,  para quando voltar a superfície, dar de cara com toda a natureza que brota e floresce em torno desse terreno alagadiço.

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Desaguar

 

        Como citei no início deste capítulo, apenas a experiência de dois anos nesse lugar, me conferiu algumas reflexões. Para nós, sempre foi mais fácil olhar somente para a individualidade, do que assumir o que estamos realmente fazendo, e entender que o Corredor é uma criação coletiva.

        Nunca fomos um espaço em que cada um alugava um pedacinho e trabalhava ali isolado do outro, como acontece na dinâmica de outros ateliês. No início era tudo muito bagunçado, não estipulamos muitas regras, meio que tudo era de todo mundo e cada um usava o espaço que queria. Alguns preferiam se manter em um lugar só, eu na maioria das vezes usava uma mesma sala para montar trabalhos, e entre as piadas internas alguém sempre dizia “a salinha do Renan”. 

         Em algum momento entramos em um consenso de que seria melhor cada um ficar com um cômodo, já estávamos no nosso segundo ano de Corredor 14, não me opus, porque era um momento em que eu realmente queria ficar isolado de todos. Mas nunca achei que a melhor opção para utilização do espaço pudesse ser essa, cada um com seu pedacinho. Percebi que essa configuração acabou selando algumas conversas que antes tínhamos com mais frequência uns com os outros. 

       Estávamos todos no quarto ano da faculdade e nesse momento eram raras as disciplinas de ateliê que cursamos juntos. E tinha dias que eu entrava no corredor ia até a minha salinha, fazia o que tinha que fazer e ia embora, então passei muito tempo sem saber o que os outros estavam fazendo, sem ver nenhum trabalho dos meus colegas. Sem cruzar com alguns pelo Centro de Artes, ou mesmo no ateliê.

    Depois de um tempo, comecei a achar isso tudo muito estranho e sentir falta das conversas, de encontrar com um trabalho em processo em um lugar que eu queria usar e ter que perguntar “de quem é isso”, e o dono responder“é meu”, disso já engatar um “ e o que é? o que vai ser? deixa eu ver o projeto?”, e disso se abrir um diálogo e provocar trocas entre nós.

       Nessas trocas que se tornaram escassas, é que percebi que desaguamos uns nos outros, que paramos de olhar um pouco para os nosso reflexo, começamos a reparar nos processos de cada um, e ver como estávamos sincronizados. Nossas conversas eram submersas, não falávamos, eram ecos silenciosos, que reverberam nos trabalhos uns dos outros.

      No Corredor as coisas sempre se misturavam, os materiais de um, logo viravam materiais dos outros, o branco do papel da Rafa, era o gesso do Davicentinho, era a tinta das minhas gravuras, era as aguadas nas pinturas da Karina. As lonas do Higa eram o laranja da Paty, eram os objetos e pinturas dos trabalhos do Marcelinho.

        Apesar de qualquer coisa, qualquer divisão do espaço, momentos em que a euforia era maior e menor, nós conseguimos manter a consonância, mesmo quando estávamos preocupados cada um com seus afazeres, faculdade, família, trabalho, ateliê. Sempre que é preciso, nos reunimos e unimos quando preciso, quando o ateliê chama. E o processo de construção do Corredor nos exigiu muito, diversas vezes.

         Embora tenhamos pouco tempo de existência - dois anos, sem contar com o ano atual em que todos estamos distantes fisicamente -  O Corredor 14 já realizou diversas atividades, entre elas as exposições 7 em Sala (primeira e segunda edição),  residências, Corredor encontra Vão e Zero,  festas, Corre Carnaval e Monocromo,  bancas de conclusão de curso,  Margem de Erro e Latência, Latência Latência, parcerias, Molde, viagens e projetos exteriores, em Caxias do Sul e Novo Hamburgo com a exposição O Corpo que te Cabe, em São Paulo para a 33º Bienal em 2018 e Residência no ateliê Vão em 2019. Além de performances, falas, conversas encontros, entre artistas, pesquisadores, mediadores, curadores, professores, desconhecidos, mas principalmente amigos - Pedro Paiva, Felipe Caldas, Chico Machado, Gabriela Motta, Renata Requião, Kelly Wendt, Martha Gofre, Jessica Porciuncula, Thais Stoklos, Silvia Jábali, Maria Luiza Mazzetto, entre muitos outros que sempre estiveram presentes mesmo que distantes.

        Nosso singelo espaço recebe em média 30 a 50 pessoas nas exposições, e entre 10 à 20 para outras atividades, mais de 100 para as festas. Esses números fictícios, segundo o censo do meu imaginário, ressaltam o empenho de sete artistas em fazer com que seus trabalhos sejam vistos e que se discuta sobre arte mesmo entre 0,01% das pessoas numa cidade com estimativa de 343,132 habitantes (IBGE). Todas essas atividades realizadas, todos os encontros propostos entre 0,01% da população pelotense e sete artistas é o que construiu dois anos do que é hoje o Corredor 14. 

       

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        Enquanto escrevo aqui e relembro de cada uma dessas atividades e das pessoas, passo a entender algo que li, escrito por Marcelo Amorim, no livro do ateliê 397:

 

 

       

         Refleti muito sobre isso nos últimos dias, talvez o próprio corredor em si e tudo que foi feito nele tenha sido a nossa obra de arte como coletivo. Nunca definimos o que o espaço seria, isso criou uma margem de erro muito grande para ele ser muita coisa, para cada membro projetar e almejar alguma coisa específica para esse espaço. O que gera uma dissociação, somos sete cabeças pensantes, querendo coisas diferentes. Somado ao fato de que nem todos tem facilidade para expor o que está pensando e dizer o que quer, e que alguns tem mais afinidade com uns do que com os outros. Existem subgrupos no Corredor, por afinidade mesmo, e também pelas ideias que convergem. É difícil trabalhar com isso. E se torna ainda mais difícil quando ignoramos o fato de que passamos a ser um corpo coletivo quando trabalhamos juntos ali dentro, ao tentar ressaltar nossas individualidades, o que se dá muito em função da produção de cada um, acabamos esquecendo que tem uma obra maior que todos nós construímos juntos coletivamente.

        Olhando um pouco para trás, quando começamos a trabalhar no Corredor, passamos dias arrumando o lugar, transformando o que antes era uma casa, em um cubo branco, ou o mais próximo disso. É uma memória linda que guardo com muito apreço, nós sete lá nos revezando para pintar paredes, descascar portas e janelas, lixar, varrer, lavar, instalar luzes. A reforma durou ao menos duas semanas, logo em seguida estávamos numa efervescência para produzir no ateliê novo e começamos a planejar nossa primeira exposição.

        Naquela época eu a Rafa e Kourinão éramos do diretório acadêmico, estávamos fazendo os planejamentos da semana acadêmica do curso de artes visuais, evento que já fazia quase 5 anos que não acontecia. Eu sempre fui muito bom em ligar os pontinhos, unir o útil ao agradável. Então propus que a nossa exposição, a abertura oficial do Corredor 14 para o público, fosse durante a semana acadêmica e entrasse como mais uma atividade oficial do evento. Por que isso garantiria ao menos a ida dos nossos colegas discentes.

        Voltando ao nosso planejamento, aqueles talvez tenham sido os dias mais produtivos e raramente divertidos, para mim, no Corredor 14. Nos encontrávamos uma vez por semana, o enorme quadro negro encontrado na rua pelos guris já estava à alguns dias na parede, a Rafa detinha o poder do giz escrevia e desenhava tudo. Conversamos sobre as produções de cada um, um por um falava sobre o que estava fazendo e o queria fazer. Projetos de trabalhos nos papéis, olhares atentos, palavras sérias, piadas descontraídas, muitas plantas do Corredor mal arquitetadas, listas de tarefas, listas de materiais, cronogramas, mais piadas. Em poucas semanas já estava tudo planejado e todos começavam a fazer seus trabalhos, conforme o andamento e o processo de cada um, sentávamos novamente e reviamos as configurações. Sempre foi muito facil para nós perceber como os trabalhos conversavam entre si.

        Nos dias de montagem foi um desafio, além de todo esse planejamento e organização, alguns de nós estavam extremamente concentrados na produção da semana acadêmica. Além da exposição do Corredor, ainda propus para os colegas do diretório acadêmico que fizéssemos uma mostra de vídeo e uma exposição no ateliê de escultura, que era um lugar improvável, de onde precisava tirar várias esculturas esquecidas por ex-alunos, pintar paredes com pé direito muito alto, em um curto espaço de tempo. Enfim, foram dias de trabalho.

         Lembro que tinha ficado responsável pela iluminação da exposição no Corredor, e que aprendi nos meus anos como montador da Galeria A Sala que essa é a última coisa que se faz em uma exposição. Então horas antes de abrirmos, estava eu lá correndo do Centro de Artes (CA) após finalizar algumas atividades da semana acadêmica, subindo em uma escada bamba tentando focar as luzes nos trabalhos e instalando lâmpadas novas. A Paty ajeitando os petiscos, Kourinão e Rafa provavelmente estavam no CA resolvendo a semana acadêmica, e o Higa, Marcelinho e Davicentinho se intercalavam me ajudando e colocando as pecinhas (espelhos) das tomadas.

        Finalmente no dia 23, de maio de 2018, abrimos o Corredor 14 para o público com a exposição 7 em Sala.

           Foi uma felicidade tremenda, a primeira vez que falamos sobre os nossos trabalhos para o público em um contexto fora da universidade, ainda que para o mesmo público, mas no nosso espaço entre amigos, conhecidos e curiosos, longe das hierarquias institucionais. Isso foi muito gratificante, pela primeira vez senti como era ser um artista, pessoas perguntando sobre o trabalho, elogiando, tirando foto, perguntando sobre o ateliê, o que iríamos fazer ali como iria funcionar, foi uma das melhores experiências.

        Nessa exposição recebemos muitas visitas, mas duas delas foram as mais significativas para mim. Em nenhuma eu estava pelo Corredor, quem as recebeu foi a Paty. A primeira foi da Gabriela Motta. Adoro essa história. No dia seguinte da abertura, ainda no turbilhão da semana acadêmica acordei bem cedo e fui para a faculdade, sem tempo para a ressaca. Estávamos organizando a mesa de recepção, acho que a Kourinão estava comigo, quando recebemos uma mensagem da Paty, dizendo algo do tipo “adivinhem quem acabou de visitar nossa exposição?”, e junto com a mensagem uma foto, de um nome assinado no caderno, com muita dificuldade conseguimos ler, Gabriela Motta, nos olhamos chocados, começamos a rir e a tagarelar sobre o assunto, quando de repente, surgiu a própria Gabi Tabu na nossa frente. Congelamos na hora, parecia que tínhamos invocado a entidade. Ela foi até a mesa e conversamos brevemente sobre a semana acadêmica, porque naquele dia, mais tarde ela faria uma fala sobre pesquisa em arte. Ela estava empolgada, como em todas as vezes que a vi, cheia de bolsas e ofegante, antes de ir embora falou algo como “Vocês conhecem o Corredor 14?  Nossa acabei de sair lá, tem uma exposição muito legal”. Nós pouco sabíamos sobre ela, somente o que o nome precede, e ela pouco sabia sobre nós, nem mesmo poderia reconhecer o rosto de um dos sete.

         Passamos o resto do dia falando sobre isso, a Gabriela Motta, uma curadora tinha ido na nossa exposição e melhor, tinha gostado. Mais tarde a Paty nos contou a tour, pelo que me recordo a Paty disse que estava sentada na janela, e uma mulher toda pomposa, que ela sabia que não era da região pediu para visitar a exposição. Então a Paty a levou de trabalho em trabalho, falando sobre nós, os artistas, e um pouco sobre as obras, disse que a mulher estava atenta e curiosa. A Paty também não sabia quem era, só se deu conta da pessoa depois que viu o nome assinado no caderno e aí surtou.

        Mas a nossa surpresa maior foi que a fala da Gabriela Motta para a semana acadêmica, sobre pesquisa em arte, acabou sendo uma fala sobre nós, do Corredor, ela tinha mudado toda sua fala depois de ter nos visitado, e disse que “era isso!”, que o que estávamos fazendo era pesquisa em arte! Eu vi um brilho no olho de cada um de nós após aquela fala, dava tom à todo o sentido das coisas que começamos fazer. 

        Depois dessa, a visita que mais me marcou, foi a da nossa vizinha, dela eu sei tão pouco, apenas que é uma senhora muito humilde, que teve pouco contato com arte, e que é bem animada. Não tenho lembranças tão empolgantes quanto a da visita da curadora. No entanto, me recordo de algo inusitado. A Paty que também a recebeu, nos contou que ela curiosa entrou na exposição olhou todos os trabalhos, comentou dos bambus de varal do Higa, e se encantou com as cadeiras de praia do Marcelinho, a ponto de quer saber o valor para comprar. 

        Meses depois, quando fizemos a segunda edição do 7 em Sala, lá estava ela novamente, e novamente só soube pela Paty, que ela tinha visitado a exposição e gostado de tudo. Inclusive, tinha sugerido que o meu trabalho, uma escultura de concreto fundido com uma lâmpada dentro, ficaria ótimo em um jardim. Achei um absurdo, ri muito, mas depois gostei. Dias depois finalmente a encontrei, estava trabalhando com uma peça de concreto que deu errado em frente ao Corredor e ela me abordou, dizendo que tinha gostado muito e enfatizou, agora pessoalmente, que daria uma boa peça de jardim.

        O Corredor 14, é sobre isso, sobre esse lugar da pesquisa em arte, em que podemos receber visitas de curadores, outros artistas, pesquisadores, mas principalmente da comunidade, das pessoas que estão ao nosso redor. E nesse sentido olhar para eles também, ainda que movidos pelos nossos interesses individuais, acabamos movendo um barquinho, mesmo que pequeno, em meio ao alagamento da cidade. Em que talvez nossa vizinha se sinta mais a vontade, tenha mais interesse e curiosidade para entrar do que a Galeria A Sala, no espaço de Arte Daniel Bellora, ou no Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo para ver uma exposição, algo que pode fazer sem pretensão alguma de se deparar com incríveis obras de arte contemporânea, ou mesmo conhecer obras de grandes artistas, apenas querendo ver e saber o que esses jovens tanto fazem, entrando e saindo com coisas das mais variadas de dentro daquela casa.

        Quase que como a partir das nossas individualidades, a vontade de nos formarmos enquanto grandes artistas, pesquisadores, professores, produtores em arte, a gente acabe  inconscientemente movimentando todo o nosso redor, criando possibilidades de encontro com arte para o todo, para a comunidade. Perceber isso é se dar conta, aos poucos, dos alagamentos, onde olhamos nossos reflexos, e perceber que ele em algum momento deságua, transborda alcançando outras pessoas, tocando outras margens, a margem da margem daquilo que está marginalizado. O Corredor assim, é possibilidade de transbordar a nós mesmos e desaguar nos outros, fazer fluir os alagamentos, para que, assim como um rio, esse processo que começa com o anseio de sete jovens artistas preocupados com seus futuros, possa traçar um percurso meandroso, que passa por uma construção coletiva e termine em um oceano.

     

Eu gosto de pensar que os eventos que se apresentam nesse livro deveriam ser todos considerados obras de arte. Alguns deles são de fato exposições, naquele sentido mais conhecido e fácil de reconhecer. No entanto, outros são difíceis de nomear. Claro que podemos nomeá-los cursos, festas, debates, sessões de vídeo, coisas corriqueiras, buscando apenas encerrar o assunto. Por isso, aqui eu gostaria de propor este exercício. Imaginar que tudo que foi feito no Ateliê397 nestes últimos anos poderia ter sido uma única obra de arte (Marcelo Amorin, 2010)

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