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Arte se exerce nas suas condições

por Pedro Paiva

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  Me mudei para Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 2013 quando vim cursar Artes Visuais aqui na Federal de Pelotas. Contam sete anos nessa cidade, e de lá pra cá ouvi muitas histórias sobre projetos de ateliês coletivos que cobriam também a função de espaços expositivos, exercendo uma missão de importância na cidade por serem organizados pelos próprios artistas como espaços autônomos. Durante minha graduação consegui ter contato com alguns que sobreviveram poucos anos pelo fluxo natural de migração da cidade, mas que em seu tempo conseguiram movimentar a atenção das pessoas com bastante intensidade. Durante os anos de formação de um profissional do campo, o contato com esses ambientes é muito importante para o entendimento de que esse campo que estudamos cristalizado na História da Arte é construído no mundo ordinário – construído a princípio a partir da intenção de subjetividades que sozinhas ou em coletivo, exercem na própria autonomia a vontade de produzir arte.

   Foi durante a finalização do meu curso que conheci o Corredor 14, sediado no fundo do Porto de Pelotas. O Corredor 14 surgiu após um período de dormência dos ateliês expositivos da cidade, período no qual consigo me lembrar de apenas um outro em atividade e que era gestionado por ex-alunos da Universidade. Quando o Corredor 14 apareceu, gestionado por artistas ainda alunos do curso em seus primeiros anos, se não me falha a memória, lembro de ficar surpreso com a ousadia desse grupo. Foi rápido que o coletivo que forma o Corredor 14 demonstrou capacidade não só de manejo do espaço, mas, ainda com mais força, a capacidade poética da produção que desenvolviam. É aí que mora a importância desses espaços. 

   Pelotas quase possui uma História da Arte própria, de certa maneira. Mas esse campo subsiste em períodos de cheias e de baixas, nos quais a única constante é a presença dos artistas que produzem de maneira autônoma e pelos próprios esforços com pouco ou nenhum incentivo externo. Hoje, esse campo se alimenta e subsiste direta ou indiretamente pela presença da Universidade na cidade. Quando me deparei com a surpresa de um lugar como o Corredor 14 – independente e autogestionado - com o tempo percebi que é dessa maneira que o campo, ele mesmo, se inventa e se constrói. Que é essa espécie de ousadia que constitui a formação de um artista. É disso que falo quando remeto a importância do contato com esses espaços durante os anos de formação dos artistas, críticos, historiadores, curadores, montadores e demais trabalhadores da área.

    O campo da arte é um campo que se constitui na sua própria invenção, é um campo no qual a invenção das suas estruturas precede o seu projeto. E é essa a função que o atelier exerce hoje, um ambiente de produção e exposição e mais ainda – uma janela que permite que seja experienciado o desdobramento e refinamento da produção poética do grupo, onde podemos ver um campo que se funda e se constitui. E isso tudo acontece de um modo bem sincero porque se trata de um espaço em abertura que é construído não só pela experiência fechada do grupo, mas também por um fluxo de pessoas e atividades que fundam o Corredor como um epicentro local frequentado pelos jovens artistas da cidade. As atividades do Corredor se abrem à presença de uma comunidade, seja nas festas, exposições ou experiências de produção que o lugar promove.

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  Tive o privilégio de participar das atividades do Corredor pelo período de três meses, de setembro à dezembro de 2019. Já era formado e tomava parte como aluno do mestrado em artes visuais da universidade, no qual desenvolvo minha pesquisa poética. Entretanto, a produção poética quando desenvolvida no contexto acadêmico por vezes corre o risco ingrato de tornar-se ou hermética ou afastada de sua própria constituição poética que é fundamentalmente operatória. Esse foi um risco duplo que corri pois na época não tinha acesso a um ateliê ou espaço de produção onde minhas operações pudessem correr livremente. Foi nesse contexto que tomei ciência do edital Zero de residência artística, ofertado pelo Corredor 14. Insuflado por uma pesquisa poética que crescia predominantemente em suas suposições teóricas, inscrevi um projeto que era fresco na minha cabeça e que buscava retomar aspectos ambientais de fluxo entre a matéria e seu meio – proposição poética que embasa minha produção. Com esse projeto fui selecionado para desenvolver a residência e pude formar um conjunto que hoje percebo fundamental na retomada da minha produção.

   O conjunto produzido pouco se assemelhava ao projeto inicial entregue à seleção. O Corredor 14 é habitado, é um atelier oficina. Na ausência dos artistas que formam seu coletivo, a produção deles assume um lugar nos diálogos. As obras, terminadas ou em processo, armazenadas ou dispostas nas salas, chamavam a vista e dialogavam com os processos que nasciam naquela residência. Interferiam nos diálogos que tinha comigo mesmo tornando-se interlocutoras que questionavam minhas operações. E no fim era essa qualidade ambiental que buscava no sentido de que minha produção, predominantemente matérica e aberta aos fluxos do espaço, se contaminou pelo encontro com outras produções. Tive a oportunidade, ainda, de ser entrevistado pelo artista, professor e pesquisador Felipe Caldas, encontro proporcionado pelo Corredor como parte corrente da residência Zero. A conversa ocorreu de modo aberto, com a presença de alunos e professores do curso que interviam nas perguntas e nas respostas. Lembro de minha presença nessas situações como parte do público e da importância que escutar outros artistas tomou na minha própria formação. Na função de entrevistado, porém, descobri que a importância se mantinha na formação dos próprios artistas que falavam sobre suas produções.

      Esse campo é um campo que se inventa na sua própria construção, nosso trabalho se constitui à medida que ele é operado e construído. Minha produção, hoje contaminada pelo período em que foi desenvolvida dentro do Corredor 14, espelha novas proposições que só puderam surgir do encontro proporcionado naquele ambiente. O resultado foi exposto em dezembro de 2019 na minha primeira individual, intitulada Situação Contenção, que contou com a presença de sete obras inéditas que foram produzidas na residência e apontam desdobramentos fundamentais de minha produção.

   É dessa maneira que a experiência de tomar parte nas atividades do Corredor 14 se inscreve na minha biografia, como mais do que um espaço de formação, um espaço de trabalho. Em Pelotas, fora da tutela da Universidade, o Corredor 14 apresenta um espaço onde – independente da condição de formação dos artistas gestores e do público– o trabalho de arte se exerce nas suas condições fundamentais que proporcionam a produção, visitação e encontro tanto com o os demais pares do campo, quanto com o público geral que o visita. É nesse sentido que o campo da arte se atualiza, na medida que ele é construído, inventado, expandido e visitado.

Pedro Paiva.

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