top of page

Relatos: Corredor encontra Vão

por Maria Luiza Mazzeto, Silvia Jabáli e Thais Stoklos

IMG_0142
IMG_0527
IMG_0147
IMG_0554
P_20190509_154732

LULI MAZZETTO

    Eu sou Maria Luiza Mazzetto, moro em São Paulo, trabalho no Vão-espaço independente de arte junto com outros 7 artistas. Dentro do Vão, divido com a Silvia Jábali e a Thais Stoklos, um galpão que nós apelidamos de Fundão. 

Um dia, a Sílvia chegou com a possibilidade de um intercâmbio de ateliês. Topamos e partimos, nós 3, a convite do Vicente, que gentilmente nos emprestou sua moradia em Pelotas, para passar uma semana de trocas com o Corredor 14.

No primeiro dia, Vicente nos recebeu e nos guiou até o Corredor, onde ficamos conhecendo um pouquinho de cada um... 

 

   -A Pati e sua relação com a pesca, sua raiz, o rio, o mar. 

   -A Rafa e seus desenhos dos projetos que se fazem no espaço de vários modos. 

   -A Karina na sua investigação sobre transparência. 

   -o Vicente arriscando entre transformers, comics e uma elegância quase monocromática em branco e creme.

   -o Marcelo tensionando papéis e tecidos, envoltos em estruturas, procurando seus equilíbrios.

   -o Renan, a luz, a sombra, o preto, o branco. 

   -o Higa, a feira, as lonas, os panos, os modos de erguer, de carregar, de mostrar. 

LULI.jpg
TRAVESSA FUNDO.jpg

    Tão diferentes e tão iguais: todos na faculdade, jovens, entrosados, talentosos, esforçados e imbuídos de “fazer acontecer”.

        Fomos muito bem acolhidas. Eles foram simpáticos, atenciosos e  organizaram espaços livres para que pudéssemos trabalhar . 

     Ao longo da semana, foram infindáveis as nossas ideias sobre o que poderíamos desenvolver. Queríamos algo que partisse de nós 3 juntas, um trabalho a 3 que pudesse envolver o Corredor e até mais gente. Pelotas é muito peculiar. Foram mais de 20 idéias, desde trabalhos mais gráficos ou pictóricos, passando por instalações até performances. O curto tempo lá era uma das limitações. Nossos projetos eram alimentados pelos jovens do corredor durante as caminhadas e as cervejas. Eles nos mostraram a cidade e divulgaram nossa temporada lá. 

       Como era difícil todas concordarem plenamente com um projeto, íamos, aos poucos, realizando em equipe, alguma continuidade das nossas práticas individuais. Todos participaram de quase tudo. Foi muito divertido encher os sacos da Silvia de ar e dispor todos eles ao longo do corredor. Em outro momento, muitos quiseram experimentar a vontade da Thais de dispor seu corpo no vão do corredor, empurrando as paredes como se ela fosse uma  viga, o que rendeu uma linda foto-memória dela no espaço.  

       No meu caso, fui extremamente sortuda. Durante um passeio com o Renan até a Lagoa dos Patos, me deparei com uma oferenda, uma cena linda de natureza morta em processo de deterioração, que veio diretamente ao encontro da minha procura por imagens assim. Aquele presente para um orixá foi também para mim um presente. É comum ver oferendas em Pelotas, mas, dessa vez, como a proposta era em trio,  eu não estava procurando e aquela, justamente, em que eu quase tropecei, era especial. Tenho muito carinho pelas fotos dessa oferenda. Ainda tive a sorte de, ainda em 2019, esse trabalho ter participado de um salão. 

        No fim, experimentamos todos juntos na sala da frente do corredor, do melhor  jeito “ cada um faz o que quer”, um contaminando o outro, fizemos junto com o Corredor, seus colegas e professores, uma roda de conversa e improvisamos, com todos, quase que sem plano algum e sem regras pré-estabelecidas, interações com paralelepípedos ao som de um percussionista que regeu o acontecimento. Sim, nos vimos, nos ouvimos, às vezes mais, às vezes menos, mas estávamos em estado de aumento da nossa atenção uns com os outros e isso foi mais importante que qualquer resultado. 

A atitude dos membros do Corredor, o frescor, a receptividade, o comprometimento com a arte, a fluência deles no pensar e no fazer vão me lembrar sempre que vale a pena continuar a arte, e, por isso, a vida.

SILVIA JÁBALI

        Silvia Jábali nasceu em 1969 na cidade de Ribeirão Preto, SP. Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Moura Lacerda de Ribeirão Preto. Em 2000 inicia estudos sobre pintura com Osmar Pinheiro. Frequentou grupo de estudo de pintura com Paulo Pasta (2008). Dirigiu o Ateliê397 de 2003 a 2010, espaço independente de arte contemporânea, promovendo exposições individuais de artistas como Tatiana Blass, Wagner Malta Tavares, Tatiana Ferraz, Lucas Arruda, entre outros. Participou do Ateliê Fidalga, grupo de pesquisa coordenado por Albano Afonso e Sandra Cinto entre 2015 e 2016. Desde 2018, participa do grupo de acompanhamento de projetos Hermes Artes Visuais, coordenado por Nino Cais, Carla Chaim e Marcelo Amorim, e no momento é integrante do VÃO Espaço de Arte. 

     Sua pesquisa mais recente conjuga superfícies do plano pictórico e materialidades do espaço tridimensional, onde elementos configuram-se de modo instintivo e fugaz, como em uma harmonia dissonante. Nestas relações, formas por vezes abstratas sugerem contornos figurativos, silhuetas enigmáticas que buscam presentificar-se por uma ambiguidade erótica e soturna. 

      Principais exposições: 2020, O Possível para hoje à noite”, MARP Museu de Arte de Ribeirão Preto, 2019, “Beba Champanhe Sem Precisar Ter Motivo”, Ação coletiva em parceria com André Barion, VÃO Espaço de Arte, São Paulo; “No dia primeiro, no nono andar”, parceria com Hermes Artes Visuais, Lamb Arts, São Paulo; “Sob o mesmo teto”, curadoria de Élcio Miazaki, VÃO Espaço de Arte, São Paulo. 2018: “Habita-me”, curadoria de Paula Borghi, Palacete 1922, Ribeirão Preto. Residências artísticas: 2019, Intercâmbio entre artistas integrantes dos espaços Corredor_14, Pelotas-RS, e VÃO, São Paulo-SP; Kaaysá Art Residency, parceria com Hermes Artes Visuais, Boiçucanga- SP. 2016, EAV Parque Lage em parceria com Fazenda São João, São José do Vale do Rio Preto, RJ. 

       

SILVIA.jpg

        Vicente, integrante do Corredor_14, foi quem me apresentou definitivamente esse espaço, quando de um encontro em nossa cidade natal, Ribeirão Preto, trocando ideias; sugeri então fazer um intercâmbio, uma residência artística, entre o Corredor_14, Pelotas, com mais duas companheiras de ateliê, Luli e Thaís, do nosso Vão espaço de arte, em São Paulo. 

Em seguida, alguns deles foram conhecer nosso espaço, quando traçamos, esboçamos um lindo projeto que estava por vir, nascia uma conexão. 

    Assim que cheguei em Pelotas já me deparei com uma arquitetura muito rica e refinada, que fez com que meu olhar se perdesse naquela paleta de cores de tons rebaixados. Ao longo de cada dia éramos abastecidos de muito aconchego e acolhimento por todos que fizeram parte desse processo, foi um pulsar, uma vibração, cheios de desejos. No trajeto entre a nossa hospedagem e o Corredor_14, algo novo sempre me surpreendia, pessoas sentadas em suas varandas ou calçadas, um cachorro a quem eu dava atenção e comida, um zelo com os edifícios arquitetônicos tombados; a partir dai percebi que uma de nossas ações poderia incluir a comunidade. 

     Tivemos inúmeras ideias, mas como o tempo era curto, pensamos numa ação que envolvesse as pessoas que faziam parte do entorno do Corredor_14, crescia em nós um desejo de deixar um pequeno rastro de que um dia lá estivemos. Elegemos um elemento significativo e de muita relevância para a identidade da cidade, o paralelepípedo. A partir dai configurou-se claramente o projeto e partimos para a construção da Ação Travessa. Numa área descampada espalhamos um volume de paralelepípedos, fomos desenhando e cada um imprimido um caminho ao mesmo tempo perene e efêmero segundo sua visão. 

          Houve também, um encontro realizado entre artistas, alunos, professores e interessados, onde compartilhamos um pouco do nosso processo de trabalho e de como é participar de um espaço independente de arte, muito construtivo. 

Lá, desenvolvemos com os integrantes do Corredor_14 práticas a partir de materiais que fazem parte do universo de cada um de nós, artista, experimentando em conjunto novas possibilidades e construindo novos processos de criação, numa simbiose indescritível. Para mim particularmente foi muito valioso, nascia ali minha nova fase. 

        Não consigo dimensionar o quanto foi densa essa experiência, uma imersão de almas, uma entrega, um saber escutar, um saber dividir, trocas infindáveis, convivência tão harmônica, tão conectada, tão fluida.

Participar dessa residência só me fez ver cada vez mais a importância do coletivo enquanto combustível enriquecedor para a construção do ser humano e de seu trabalho. Uma semana inesquecível, junto de pessoas de uma valia sem fim, de uma grande responsabilidade e maturidade, a quem eu estratifico num muito meu obrigada!

THAIS STOKLOS

        Nossa experiência de ida a Pelotas para fazer uma residência artística no espaço de arte Corredor foi muito melhor do que eu imaginava. Num impulso fui retirada de uma inércia de afazeres cotidianos da minha cidade SP, para estar absolutamente entregue para a convivência com o grupo de artistas desse intercambio. 

         Logo no primeiro dia, me senti acolhida por todos, sendo bem vinda tanto para o trabalho quanto para o descanso. Eu estava confiante já de que conhecer esses novos parceiros juntamente com minhas queridas parceiras, a viagem além de ser sem volta, seria linda, e produtiva, assim como gostamos. 

O grupo de artistas nos receberam com tanta delicadeza, que nossa atenção se aflorou, e então nos possibilitou entrar no lugar onde mais gostamos de estar: no lugar perturbador da criação. 

        Todos os momentos eram vividos, sentidos e focados. Nossa conexão era tão sensível que só era possível criar, mesmo com tantas duvidas, o fluxo era interagir, era olhar com atenção um jeito novo de pensar. Nos víamos surpreendidas com processos diversos naquele mundo agitado, fresco, responsável e imensamente artístico. Qualquer gesto de um artista era amplificado, era notado, era valorizado, e assim só se aprofundava. Não era só em materiais plásticos que a residência se debruçava, era em comida, em bebida, em música, em pessoas, em ambientes, em arquitetura, em farra, em passeios. A nossa atenção era contínua, voltávamos para casa, e a conversa não acabava. Dormíamos tarde, acordávamos cedo, e continuávamos nosso agito, aquele próprio do tempo que se cria com fundamento, que nem sempre é confortável. Aquele grupo coeso de artistas nos forçava a estarmos cada vez mais afinadas e com mais vitalidade. 

THAIS.jpg

        A sugestão do grupo para que fossemos trocando experiências práticas ao longo da semana, foi de uma riqueza imensa. Foram processos que se complementaram, ideias que se refinaram, práticas que foram revistas, acasos que foram introduzidos. Além de todas essas horas também organizamos 

   -uma exposição, com um público interessado visitante 

   -uma fala riquíssima entre pensadores e artistas 

 -uma intervenção performance pública, devidamente registrada 

   -passeios pela cidade

        Agradeço e admiro a todos, a cada um, pela organização impecável, pelo ambiente disponível para as trocas valiosas, a maturidade artística, e a responsabilidade que foram possível esse mergulho livre e profundo na pratica artística com vocês.

1

121612952_1407935352737640_1353690646337
bottom of page