
Ensaio sobre a construção de
meios,
por Rafa
“Uma palavra resolveu sair para passear. Assim que pisou na calçada percebeu que o passeio não era livre nem despretensioso. No momento em que respirou o ar da rua, se deu conta de que estava presa a um começo e de que era, ela mesma, o começo de uma história.” (Noemi Jaffe, 2016)
0. Antes do começo
Fiz ensino médio numa escola estadual chamada Carlos Kluwe, que divide terreno com a Secretaria de Cultura da cidade, em Bagé, no interior do Rio Grande do Sul. Essa Secretaria vinculada a escola abriga um espaço expositivo bem interessante, chamado Galeria Porão, onde estive pouquíssimas vezes, uma delas foi durante uma das poucas aulas de artes que tive. Fomos visitar a exposição que estava em cartaz e tudo o que lembro é de ver algo parecido com pele, pendurada pelo teto, quase chegando no chão. Um tanto rosa e com cheiro um pouco estranho. E, na tentativa de censurar meus olhos de pré-adolescente que não queria aceitar que estaria vendo algo pela primeira vez, escolhi passar muito rápido por aquilo. Ainda que tenha sido tempo suficiente para lembrar disso até hoje. Lembro da constatação de achar aquilo ali na minha frente um absurdo, uma coisa estranha, duvidosa. E hoje rememorando, acredito que depois dessa visita, desde a escola até chegar à graduação em artes nunca mais vi arte contemporânea, muito menos dessas que se dizem: arte contemporânea.
Um dia no ateliê de gravura - agora já como estudante da UFPel - entre esticar uma tinta e tentar não sujar o papel caro com os dedos, fiquei um bom tempo olhando para uma gravura que está emoldurada e exposta por lá. É uma gravura com desenhos que se misturam entre pênis e plantas carnívoras (que talvez seja o título: planta carnívora). No dia, lembro de comentar com a Kelly sobre essa gravura e ela falou que era da Helena Kanaan, artista e antiga professora ali na gravura. E, depois, comentou que ela era minha conterrânea, de Bagé. E, ainda, que ela fazia trabalhos com litogravura sobre látex - e fez um gesto com a mão como quem fala de algo orgânico, maleável. Nesse momento a imagem das ‘peles’, de 2012, veio imediatamente na minha cabeça. Aquilo que quase não quis ver na minha primeira visita a uma exposição, ainda era um absurdo, assim como esse resgate do fundo da memória. Mas, agora, no Centro de Artes tudo era um pouco absurdo, só que um absurdo do tipo possível - como imprimir desenhos de uma pedra.
Ainda vejo a própria gravura uma linguagem com um quê de improvável. É sempre uma surpresa tirar o papel da matriz e ver o mesmo desenho em outra superfície. O mesmo traço, em outra forma. Mas o estranhamento se resolve no processo de conhecer a técnica, de entender seus funcionamentos e possibilidades, o que torna tudo mais fascinante e também possível. Tal qual o funcionamento das artes hoje no Brasil. Quando revivi a memória do meu encontro com a instalação da Helena Kanaan, por mais que fosse algo bem previsível a acontecer - por estarmos nas mesmas cidades - foi uma situação que me deu permitiu enxergar um pequeno mundo da arte por certa transparência. As andanças e movimentações tanto de artistas quanto dos seus trabalhos são mesmo muito possíveis, coisa que até eu ligar esses pontos era uma rede muito abstrata fazendo parecer esse encontros apenas grandes coincidências.
Conectar tais pontos me fizeram entender um pouco melhor o jogo em que estou hoje - e que também estamos com o Corredor. Ter entendido ambas as técnicas, da gravura e do circuito das artes, tornou minha graduação consideravelmente mais fascinante e possível também, ainda que com seus percalços. Em 2017, eu estava prestes a mudar de curso quando fizemos a exposição “Corredor 14” no final do semestre. Juntamos um grupo de pessoas a favor de um espaço e acho que aí, antes mesmo do Corredor ser um espaço dividido por sete pessoas, junto à minha experiência entre Bagé, Pelotas, gravura e látex, eu começo a projetar qualquer tipo de futuro nessa área.
Nesses saltos no tempo, percebo como a arte nasce e mora nos encontros. Das pessoas com os lugares, com elas mesmas, e com as coisas. Da energia fértil do ajuntamento. Eu não lembro se o Corredor 14 já existia naquele dia da conversa com a Kelly, mas independente se sim ou não, foi onde começou a brotar um espaço imaginário criando umidade. Mofo, ou bolor… mas uma concentração de células cheias de energias para a criação.
Já não tenho mais esses detalhes nítidos na memória. Além do isolamento social, também estive em outra universidade na segunda metade de 2019, que somando, me distanciaram por mais de um ano dos ateliês da UFPel.
Kelly, ou Kellinha, é nossa professora e parceira do Corredor. Já nos salvou inúmeras vezes: emprestou piscina, luzes, ideias e quase foi nossa fiadora-mãe quando mais precisamos.
A litogravura (gravura em pedra) é uma técnica que permite que se use a pedra como matriz e faça cópias a partir dela. São alguns longos processos para preparação da pedra e depois para a inscrição do desenho. E é algo possível de se fazer no ateliê de gravura da UFPel, onde temos um grande estoque dessas pedras específicas.



O Corredor 14 nasce de papel passado e contrato assinado com a imobiliária em fevereiro de 2018. No entanto, desde antes do contrato, a Pati já morava nessa casa, do qual ela já nomeava Corredor. Em março de 2017, quando finalizamos o primeiro ano de faculdade, fizemos uma exposição lá, por ideia dela, do Vicente e do Renan. A exposição se chamou Corredor 14 e assim deu nome ao espaço até hoje.

Exposição que aconteceu no final de 2016/2 para a disciplina de Materiais Expressivos I

Dia da montagem, Patrícia e Vicente na foto.

Meu primeiro trabalho exposto foi no Corredor 14, antes de ser Corredor 14, rs.

Exposição que aconteceu no final de 2016/2 para a disciplina de Materiais Expressivos I


Estava eu e o Renan em uma de nossas aulas, um pouco entediados e com calor nos perguntávamos por onde estaria a Pati. Já bem atrasada para aula, ela me envia uma mensagem dizendo que estava com problemas em casa, que havia brigado com a outra moradora de lá e que teria que desocupar o imóvel. Eu preocupada logo comecei a perguntar como as coisas tinham acontecido, se isso seria imediato e tudo mais. E mesmo que no início de 2017 tínhamos feito a exposição Corredor 14 nessa casa, não pensei que aquele lugar poderia vir a ser O Corredor 14. Recebida a notícia da Pati, comentei tristemente o acontecido com o Renan, que no mesmo instante, arregalou os olhos, um sorriso na boca, me deu um tapinha no braço e disse “É isso! O ateliê vai ser lá! Avisa pra ela que a gente aluga!”. Eu completamente embasbacada não sabia nem como começar a digitar a mensagem… daquele dia em diante, seguiram-se inúmeras reuniões.

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2. Mais que um, a gente
“Eu penso que o fenômeno local é o mesmo em todos os lugares e que a nossa concepção de universal que o difere.” esta frase é do artista francês Stéphane Vigny, citada pelo curador Júlio Martins na mesa Disparidades Regionais durante o seminário Longitudes: A Formação do artista contemporâneo no Brasil. Os dois, curador e artista, trabalharam juntos em Belo Horizonte durante a residência de Vigny no Brasil em 2009, onde ele vivenciou, produziu alguns trabalhos e pôde estabelecer proximidades entre os países, que o fez concluir tal coisa. Eu anotei essa frase repetidas vezes nos meus rascunhos, por que acredito que ela diga muito do como a arte é feita e o quanto a arte se produz nos deslocamentos. Me faz pensar que as experiências em deslocamentos de cada um de nós do Corredor trouxe uma concepção muito rica e essencial para o nosso conjunto. Se considerarmos, por exemplo, que o contexto também faz a arte, então o Corredor é filho das cinco cidades do qual cada um veio, além de Pelotas.
Lembro de um filme de animação chamado Horton e o Mundo dos Quem, baseado no livro infantil Horton Hears a Who de Dr. Seuss. Esse filme traz uma relação de escala que acredito que ilustra muito nosso encontro. O filme tem dois ambientes, dois mundos, mas um dentro do outro; Horton é um elefante, que escuta muito bem e que vive numa floresta, os Quem’s são personagens quase humanos, que vivem em uma cidade cheia de questões e que na realidade do Horton, a cidade dos Quem’s tem o tamanho de um grão. Com a escuta, eles passam a conseguir se comunicar e tentar resolver certos problemas, tanto do mundo maior quanto do mundo menor, por que um afeta o outro.
Quando penso na nossa formação e na formação do Corredor, sempre me vem à cabeça a imagem de uma ponte aérea, conectando Pelotas a São Paulo. Por ser esse um caminho corriqueiro para os quatro corredores que vem de lá e trazem resquícios daquele lugar. As suas falas, produções, rotinas respingam no restante dos corredores de maneira significativa que essa conexão entre os lugares passou a ser percebida por todos. Nas vezes que estive em São Paulo para conhecer a cidade com o Renan, para visitar a Bienal ou para a Residência no Vão pude constatar um pouco isso. Rolou uma certa identificação. Nas ideias, nas produções, na fala. Conseguia enxergar o Corredor lá, nas galerias, produzindo aquele tipo de trabalho, atuando de forma muito parecida com os agentes do circuito paulista, e principalmente, querendo aquilo, o movimento. Alguns com isso bem nítido, outros nem tanto. A única diferença é que estamos em Pelotas - e Pelotas não é igual a São Paulo.
Ainda sobre o filme, em ambas versões de 2008 e de 1970, o grande motivo que enreda todo o roteiro é quanto a sobrevivência dos Quem’s, do grão, que precisam fazer barulho para serem ouvidos - literalmente - pelo restante da floresta que não acredita na mini-cidade. Tornar-se visível (ou audível?) para ser reconhecido, não por acaso, também é a grande busca - e função - de artistas, coletivos ou espaços independentes. As exposições, festas e demais eventos, ainda que não nos traga um retorno direto propõe que o espaço e nossos trabalhos sejam vistos e reconhecidos por alguém. E, enquanto propositores ainda tentamos fazer com que esse lugar seja experienciado da maneira mais interessante possível para que fique marcado no corpo a importância desses lugares. É um esforço de gritar, ter fôlego para seguir gritando e ainda recrutar mais gente para que o grito seja coletivo, por que ele não tem como ser individual. Nós nos ramificamos nos terrenos que nós mesmos preparamos.
A relação entre macro e micro escala do circuito paulista e pelotense provoca a termos o olhar voltado à grandes escalas, nos servindo de modelo e exemplo de atuação aqui. Estratégias, organizações, formas, visualidades. E sugere também a olharmos mais para a gente, impulsiona perguntas que nos traz a toda essa escrita: O que é o Corredor 14? Ou mesmo, para que é o Corredor? E de que forma conseguimos colocar em prática esses modos de agir em uma cidade com uma circulação de pessoas, de público de arte, consideravelmente menor? Somos o grãozinho que contêm uma cidade inteira, um ecossistema, que depende das condições do externo por que o ecoa em outra proporção. Um movimento em macro escala que atinge o micro, o elefante e o grão, a arte hegemônica e o Corredor. Quando se busca cobrir uma casa - de arquitetura tão marcante que chega a dar nome e defini-la - com branco mais próximo de uma galeria de arte, muitas vezes quase perdemos de prestar atenção nas peculiaridades mais interessantes.
Na época do primeiro 7 Em Sala, lembro de perceber o Daniel e o Marcelo conversando e construindo suas ideias muito pautadas no cotidiano pelotense, justamente porque para eles, e para todos nós, era uma experiência nova que estávamos inaugurando naqueles primeiros anos. É um olhar do estrangeiro que percebe as coisas minimamente se repetirem, ou destoarem, eu estava entendendo, nesse inicio de Corredor e graduação, o que arte poderia vir a ser: o cotidiano de Pelotas destoava para alguns, para outros seguia o mesmo, e dessa mistura fomos preparando a terra das produções.
Depois que morei no Rio, costumo dizer que: o Rio de Janeiro é uma cidade de praia e São Paulo é uma cidade de cidade. E agora acrescentaria Pelotas apesar da comparação um pouco desproporcional, e Pelotas seria uma cidade de gente.
Pelotas e a região do Porto, onde mais circulamos, é um lugar bem vazio, que parece ser sempre sábado e nesse vazio que se cria a vontade de encher. O carnaval da cidade têm sido no Porto nos últimos anos, onde também é o território de espaços de festas, bares, festas de ruas, terreiros e dos campus da universidade. O Porto é um lugar de espaços. E aí, uma sequência de coisas vão se construindo para gerar o encontro dentro deles. O Corredor 14 acaba fazendo parte dessa categoria de ‘espaço a ser preenchido com encontros’ também por habitar esse ecossistema de lugares possíveis. Somos influenciados pela ausência de acontecimentos daqui.
A condição úmida do lugar não é nem um pouco mágica ou aconchegante, nem o chão, as paredes, a configuração da arquitetura, tudo é bem normal e não existe fantasia, é apenas mais uma casa na cidade. Mas, retomando… é uma cidade de gente. E o quente de uma sala cheia de gente é que cria os bolores mais interessantes. Há pouco tempo, aprendi que o verbo temperar pode, além de colocar temperos, significar conferir a temperatura. Um fungo, por exemplo, pode apodrecer um alimento, mas também é capaz de fermentar. E, entre o apodrecimento e a estabilidade do alimento está a temperatura. Durante esse momento em que escrevo, vive um fermento na minha geladeira - em temperatura baixa - trazido e partilhado por uma amiga. Eu não sei exatamente como manuseá-lo e portanto ele está dormindo na geladeira há alguns dias, para se conservar enquanto algo vivo. Esse resguardo me faz pensar que existem momentos de hibernação e que eles são importantes, talvez não para o conteúdo em si - o fermento, mas para quem virá à manuseá-lo, um momento de maturação a quem fica fora da geladeira. E, traçando um paralelo com o Corredor, sinto que a história desse lugar é um imenso tira-e-põe dentro da geladeira, sem muito manejo, querendo mantê-lo vivo enquanto se aprende a fazer isso. Nunca estivemos em (ou fomos) um local seco e fresco como sugerem os rótulos para evitar os fungos, e, apesar de algumas vezes estarmos em um momento de suspensão e hiato, conservados na geladeira, ainda coisas ebuliam e bolores se formavam, só que em nós mesmos. Isso responde, ou até inventa, nossos subgrupos ou atuações em paralelo ao Corredor.
Não apenas pelo espaço disponível, um ateliê compartilhado também serve como símbolo, uma sigla, um selo, um clã, uma marca registrada que vai mais longe que a gente imagina (relato isso mais para frente). Maioria de nós, quando fala do Corredor logo já fala pelo o que ele não é, “não somos um coletivo”. Independente de ser reconhecido como tal, o nome do espaço vinculado a nossos trabalhos e a nós mesmos, confere uma certa institucionalização, mesmo que uma institucionalização inventada pela gente mesmo. É como se fizéssemos parte de uma família e algumas pessoas passam a te reconhecer a partir dela. E isso já aconteceu bastante, falar meu nome, falar meu trabalho, minimamente mencionar um ateliê e logo perguntarem sobre ele, o que é, como funciona, quem habita?
No final da nossa residência em São Paulo com a 3ª edição do 7 Em Sala montado e exposto, esperávamos de porta aberta algumas visitas, algo bem difícil de acontecer depois da vernissage de abertura, mas ficamos abertos para receber alguns parentes e amigos próximos. Enquanto eu estava na recepção, chegou uma pessoa que não tínhamos vínculo para ver a exposição, ela perguntava sobre o Corredor e disse nos acompanhava de longe, nos conhecia do Instagram. Na hora, eu não achei nada demais, fomos conversando, falei do meu trabalho e um pouco do trabalho dos outros. Falar do próprio trabalho é sempre gratificante quando temos com quem dialogar e trocar, é um pouco de onde as novas ideias nascem, muitas delas inclusive em conjunto. Falar dos trabalhos dos corredores também é curioso, tem proximidades que percebo só na conversa com essas outras pessoas de fora, por que normalmente estamos o tempo todo mergulhados em nós mesmos, que dificulta enxergar as separações e os pontos em comum. Depois dessa conversa, fiquei pensando sobre a visita e sobre ela nos conhecer primeiro à distância, por que é um exemplo de que se não tivéssemos esse nome - o elo que faz todos acharem que somos um coletivo - esse encontro, assim como muitos outros, nunca teriam acontecido, por que é a partir dele que sustentamos a rede de “auto-apoio” entre os sete e também entre os demais números.
O seminário Longitudes: A formação do artista contemporâneo no Brasil ocorreu em 2014 na Casa do Povo em São Paulo. Organizado pela pesquisadora Mariana Fernandes, o evento instaurou diálogos sobre a profissionalização entre artistas, pesquisadores e professores no cenário atual. Esse seminário é uma das principais referências para a publicação Lugar Úmido e está disponível no YouTube.
Bagé, São José do Norte, Venâncio Aires, Ribeirão Preto, São Paulo - e ainda um pouco de Toyohashi no Japão, onde Higa morou por algum tempo. Isso também me lembra uma memória muito querida por mim, que entre os invernos, neblinas e umidades de Pelotas sempre dividimos o prazer de ouvir Vitor Ramil em dias de chuva - um clássico pelotense. A Pati, coração místico da casa, um dia nos trouxe a música Milonga de Sete Cidades em que Ramil traz sete cidades-qualidades: rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza, leveza e melancolia. A Pati denominou a cada um de nós às sete cidades da música. Já não lembro quem era o quê naquele momento, mas lembro que fazia muito sentido. Nos transformamos e nos contaminamos ao longo do tempo, mas sempre que ouço a música consigo ver o rigor, profundidade, clareza e todas outras ‘cidades’ em cada um de nós. Nos conhecemos muito a partir dos nossos trabalhos e acredito que esse olhar minucioso para as especificidades é também uma característica que fomos lapidando em conjunto.
O filme todo é entrelaçado por brincadeiras com as palavras, que é bem marcado na versão original de 1970. À distância é difícil discernir a individualidade de cada "quem?" e nesse caso dou toda razão a quem nos chama de coletivo.
Renan comenta no texto dele:
O último ateliê que figurou muito tempo em nossas conversas foi o Ateliê397, não lembro como chegamos nele, mas em algum momento de 2018 estávamos lá, cinco de nós, sentados em uma mesa conversando com, Thais Rivitti, uma das gestoras, sobre as mais diversas curiosidades de se ter um ateliê, como manter e como elas faziam por lá.
Carolina Clasen com a palavra:
o corredor arregaça a porta e
como um movimento de
extrusão transforma seu
batente em corredor,
redimensionando os chegares
e acolhendo não apenas
debates que vazavam a
estrutura da produção
produzida para e pela a
instituição, mas produzindo
paisagens de águas errantes,




Pedro Paiva:
O Corredor 14 surgiu após um período de dormência dos ateliês expositivos da cidade, período no qual consigo me lembrar de apenas um outro em atividade e que era gestionado por ex-alunos da Universidade.

Final da expo-desfile Alfinetasso, decorrente do projeto Molde, organizado pela Pati, Jéssica e Rogger.

Residência (das gurias) Vão encontra Corredor

Primeiro 7 Em Sala

Final da expo-desfile Alfinetasso, decorrente do projeto Molde, organizado pela Pati, Jéssica e Rogger.

Residência Corredor encontra Vão, onde fizemos a 3ª edição do 7 Em Sala

Residência Corredor encontra Vão, onde fizemos a 3ª edição do 7 Em Sala

Residência Corredor encontra Vão, onde fizemos a 3ª edição do 7 Em Sala
Renan Soares:
Nosso singelo espaço recebe em média 30 a 50 pessoas nas exposições, e entre 10 à 20 para outras atividades, mais de 100 para as festas. Esses números fictícios, segundo o censo do meu imaginário, ressaltam o empenho de sete artistas em fazer com que seus trabalhos sejam vistos e que se discuta sobre arte mesmo entre 0,01% das pessoas numa cidade com estimativa de 343,132 habitantes (IBGE).
3. A se compartilhar


Na primeira metade de 2019 o Corredor recebeu algumas visitas de gente de fora, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo. O espaço e alguns de nós, estavam se tornando conhecidos, participando de salões e exposições maiores e criando diálogos mais diretos com pessoas de fora do nosso círculo. Através disso, recebemos pessoas muito queridas, que vivenciaram um pouco do nosso cotidiano. E, falo vivência por que realmente foi um momento de quase dividir a casa. Infelizmente, já estávamos um pouco desestabilizados pela falta de convívio entre os sete e sinto que cada encontro poderia ser mais proveitoso no sentido do trabalho em arte, mas ao mesmo tempo, me conforta um pouco pensar na possibilidade que tivemos de aconchegar de alguma forma quem passou por aqui, por que talvez também fosse o que estávamos precisando na época. Sentar juntos, fazer um almoço, assistir futebol, dar um tempo dos grandes movimentos e perceber o nosso próprio.
Das visitas, tivemos um encontro com a Bianca Bernardo, ao lado da Jéssica. A vinda do Chico Soll, amigo do Higa. Além da residência das gurias do Vão: Thaís, Silvia e Luli, por intermédio do Vicente.
Seguindo a ordem dos encontros: Jéssica é uma amiga em comum a todos, uma artista que admiro muito e que divido muitas histórias e criações também. Ela participou do projeto PPPP, Programa Público de Performance Península, que é organizado por um pessoal de Porto Alegre. Nesse projeto participaram quatro artistas, uma delas Bianca Bernardo. O projeto previa um deslocamento em algumas cidades do Rio Grande do Sul incluindo Pelotas. Bom, o caminho da Bianca ao Corredor foi um pouco esse, não havia vínculo institucional com o Corredor, apenas afetivo. A Jéssica a levou lá para nos conhecermos e foi um encontro muito singelo. Lembro que falei bastante dos meus trabalhos, e ela perguntava também, na intenção de ajudar a resolver algumas questões que eu tinha com algumas produções da época. Depois comentamos o trabalho do Marcelo e do Daniel, que estavam por lá.
No dia seguinte, marcamos de beber um vinho no Corredor. Já estava fazendo frio e como costume da Jéssica, da Pati e do Rogger, saímos pelo Porto atrás de madeiras para fazer uma fogueira no pátio. Nessa caminhada a noite, fomos conversando um pouco sobre a vida, trabalhos e o que demais víamos no trajeto. Paramos na frente da Sagres, uma imensa transportadora de madeiras que fica na região do Porto, e ficamos olhando para aquelas madeiras enormes segurando uns gravetos minúsculos na mão. Esse terminal de toras de madeiras sempre me impressiona, causa uma perda de perspectiva pelo tamanho. Sinto um pouco a sensação do grão e do Elefante. Enfim, voltamos, fizemos a fogueira com os gravetos que achamos e ficamos por ali conversando, aquecendo as mãos.
Instauro esse ambiente aqui, por que um tempo depois, conversando com a Jéssica, ela comentou que aquela noite tinha sido muito marcante para a Bianca, sair na rua para encontrar madeira, fazer uma fogueira com as mãos, era de um cotidiano que ela não esperava. E, realmente, não é algo tão normal em lugares que não Pelotas, onde me parece que as coisas são mais autônomas e espontâneas.
Nessa conversa de bar com a Jéssica, a conclusão já havia sido tirada, as características da cidade estão em nós mesmas. Desse diálogo, nasceu a PIB, Produto Interno Bruto, um projeto de exposição entre eu, Jéssica, Pati e Amanda, onde inclusive pensávamos num recorte de Brasil aqui, entre pequena e grande escala. Mas mais que isso, começamos a especular mais o que acontece no nosso meio, justamente por que existe esse meio, temos um entorno, uma bolha, que na verdade é um circuito próprio de arte, ainda que pautado pela intimidade criada entre os artistas, um circuito de pessoas. Grande parte da discussão desse projeto aconteceu no Corredor, na minha sala do ateliê, que quando sozinha, eu pouco frequentava. Os projetos e encontros vão naturalmente sendo baseados no convívio. Já não tinha tanto contato com os meninos naqueles meses e assim as coisas vão se dissipando para outros círculos. O Corredor existe não só pelos sete “integrantes” mas por todo mundo que passa por ele, que corre junto, é um ateliê e uma vida a se compartilhar.
A outra visita foi do Chico, que estava na abertura da PIB, inclusive. Ele passou um final de semana em Pelotas, no sábado fizemos um encontro aberto, ele deu uma oficina de portfólio e no outro dia fizemos um almoço de domingo. Na oficina, alguns outros alunos do centro de artes estavam por lá também, conversamos um tanto sobre saber apresentar seus trabalhos e o quanto isso importava aos olhos de um curador, como um “como entrar no sistema?”. Mas o que mais gosto de lembrar desse encontro é da ordem do afeto de novo. No domingo que fizemos um almoço com todos os corredores e o Chico, já era inverno e o Corredor é bem frio, decidimos montar as mesas na rua e comer embaixo do sol (imagem). Não lembro qual era o cardápio, mas coisas simples, sei que nosso fogão só tem uma boca. Comemos, conversamos, rimos, tomamos café. Eu, nessa época, fazia Kung Fu aos domingos com o Jorge, Gabi, Jéssica e Stela, amigos nossos, eles chegaram e eu fui. Temos uma praça enorme em frente ao Corredor e costumávamos treinar lá, por que era calmo e agradável. Lembro de anunciar “galera, vou pro kung fu, até mais”. O Chico ficou com uma cara de ‘como assim?’ e perguntou “como assim?”, e eu falei “treinamos aqui na frente”. Ele ficou olhando, atento, da porta. É engraçado ver, de novo, a percepção desse estrangeiro por aqui.
A mesma medida que traçamos alguma relação com o circuito mais hegemônico da arte que nos obriga à pergunta “o que é o Corredor 14” para se definir e assim se inserir, também ocupamos o lugar de ser o oposto disso tudo e que acredito ser o que nos caracteriza, que nos permite ser mais autônomos, espontâneos e gerar coisas com pretensão de chegar em quem está do nosso lado.









4. Ida com volta


Na segunda metade de 2019, fiz uma mobilidade acadêmica, e, assim, numa mudança repentina fui estudar na UFF em Niterói, no Rio de Janeiro. Esse período possibilitou a Residência Zero que trouxe o Pedro Paiva para dentro do Corredor. Quanto minha ida, havia a vontade de ir para uma capital saber do mundo, sair do sul, trocar de rotina, ver outros costumes (poderia dizer que estava sendo como uma viagem internacional pra mim), outros acontecimentos, eventos, circulações de arte, mercados, circuitos, e umidades… também existia a diferença entre os cursos. A grade curricular do curso de artes da UFF é muito diferente da UFPel, os nomes das disciplinas ou assustam ou encantam de primeira vista, e foi mais ou menos nesses motivos que justifiquei essa ida para mim mesma. Fui com o coração apertado e confesso que todos os dias morri de saudades de Pelotas um pouco.
Eu tinha muitos desejos e receios por chegar lá e fui nutrindo eles até minha chegada, pesquisando tudo o que pude para tentar entender o que esse movimento tava me implicando. Queria ver como seria possível ter aula com Tânia Rivera e Ricardo Basbaum sem eles estarem apenas em textos e palavras. A primeira pergunta que Basbaum me fez numa conversa despretensiosa foi: o que te traz aqui? Justamente o que eu não fazia ideia, ou fazia muita ideia e não conseguia definir. Queria responder que era por ele, de certa forma, por que queria alcançar algum lugar no (ou para ver o) mundo da arte e ali poderia ser uma fresta. Mas respondi que era por causa da universidade como um todo, pelo Rio e pelas belezas clichês. E tudo era verdade, era um mar de coisas que me influenciavam a ir. Ficava imaginando como tinha sido pros meus colegas da UFPel que em 2016 tinham saído dos seus estados para ir à Pelotas. Queria saber se Pelotas e Niterói seria um oposto ou um complemento. Queria saber como esse deslocamento influenciaria nos meus trabalhos. E, entrar (de novo) na faculdade, encontrar pessoas novas, criar ou tentar criar laços, e ainda, pela experiência, ver coisas se repetindo. Amigos muito parecidos, personas em comum, artes e artistas, espaços e circuitos de arte. As coisas se replicam em todo lugar e fui percebendo isso aos poucos na prática.
Assim se foram as primeiras semanas, até que aconteceu algo muito curioso. Eu estava em uma aula do Basbaum, que eram aulas expositivas, então utilizavamos muito os aparatos tecnológicos. Projetor, computador e internet. Começava assim ligando as coisas enquanto aconteciam as conversinhas de início de aula. No que o projetor liga, olho pra tela se formando e vejo uma lista de arquivos, em ordem alfabética, onde o professor procurava os textos do dia e corria pra cima e pra baixo. Eis que, na letra C da lista, estava lá… Corredor 14. Era minha terceira aula, sei lá. Eu fiquei meio tensa, incrédula, chocada, paralisada, queria poder ter a Pati sentada ao meu lado para poder ver ela gritar alguma coisa, mas eu tava sozinha, sem nenhum dos Corredores comigo. Como assim! Olhei devagarinho pros lados, voltei pra tela, cerrei os olhos e pensei ‘não pode ser’. Fiquei matutando na cabeça o tanto que o Corredor tinha andado para chegar no Rio de Janeiro. E é engraçado como as coisas andam nas bolsas dos outros, nos bolsos, computadores, mochilas, malas, cadernos e ideias. O Corredor foi parar lá no computador de uma pessoa que eu considerava absurdamente distante e naquele momento estava na minha frente.
Mas todos os absurdos são possíveis agora, e o Corredor 14 tinha chegado ali por um amigo, que tinha trilhado essa mesma rota Pelotas-Niterói na primeira metade de 2019. Ele havia apresentado aquele arquivo no semestre anterior, para a proposta de um trabalho sobre espaços autônomos de arte, que por coincidência ou não, vinha a ser o Corredor para o Tales. Tales se formou em 2019 e durante a graduação frequentou as exposições, as festas do Corredor e ainda morava com o Higa. Acredito que todos nós entramos na faculdade no mesmo ano e fomos nos acompanhando, comentando sobre os trabalhos, se encontrando em aulas, levantando questões, cervejas e vinhos, ou mesmo se acompanhando de longe. Nesse sentido, que percebo o quanto fazemos as coisas em conjunto e também para o conjunto. Por mais que o Corredor divida o aluguel entre sete pessoas, também dividimos nossa vivência com quem está em nosso entorno, tecendo uma rede.
Nesse caso do Tales, pude ver onde a “palavra do Corredor 14” pôde chegar e fico imaginando onde mais ela já chegou. Lembro de minha mãe, autônoma que também têm um espaço próprio, dizendo com certeza de mãe: eu não faço propaganda do meu trabalho, eu não acredito em publicidade, eu prefiro o boca a boca, aquilo que vai passando de um pra um, devagar, mas com consistência de quem experimentou por si mesma o espaço. E realmente, concordo. Acredito que quem mergulhou na piscina do corredor durante o carnaval, não esqueceu dela e ainda tem histórias pra contar. Assim como, quem viu nossas exposições, ou nos ouviu um pouco falando dos trabalhos e do espaço. Sabemos que fazemos bem o que fazemos e é importante, enquanto artista, ter segurança em pelo menos nisso. Eu poderia escrever infinitamente sobre o quanto minha vida é permeada pelo Corredor, ou pelos encontros no geral, porque construímos nossas vidas assim, por essas trocas. E o ateliê, mais do que possibilitar as trocas, também nos entrega um direcionamento, vai balizando entre o que queremos e onde podemos chegar. Balizas que por vezes podem ser limitantes ou pequenas aos olhos de uma escala nacional, mas que na verdade é tudo o que alcançamos com a mão e onde realmente podemos fazer o movimento acontecer com nosso próprio corpo.
Em alguma refeição compartilhada no restaurante universitário, eu conversava com Higa sobre minha pretensão de ir para o Rio, ainda estava indecisa se deveria ou não ir, contava as ideias a ele na tentativa de tirar alguma aprovação ou conselho. Ele falou que eu deveria ir, que seria ótimo ver as coisas de longe. Estávamos na época já planejando nossa ida ao ateliê Vão, que seria a nossa (e a minha) primeira residência, então realmente me parecia um ótimo momento para continuar “indo” ver as coisas de longe.






Bônus +1. A ressaca
Se ao longo do texto falo que o corredor é um espaço para o encontro, as festas eram um ótimo motivo para se encontrar. Inclusive, lembro que quando fomos visitar o Ateliê 397 em São Paulo, a Thaís Rivitti estava chegando no ateliê, com um fardo de latinhas de cerveja. Nós já estávamos conversando com pessoal ali das mesas, e até então não conhecíamos ela. A gente conversava sobre estratégias para manter o espaço funcionando, ela ouviu, olhou pra gente, olhou pras próprias mãos e disse, “isso aqui não pode faltar… cerveja!” Rimos, principalmente porque todos nós ali sabíamos por experiência que, grande parte, dos espaços de arte hoje no brasil sobrevivem das festinhas. É um cansaço que também é satisfatório, uma ressaca boa. Mas toda fase jovem passa, hoje posso afirmar. Mesmo ainda tendo 22 anos, não sei se teria pique para fazer as festas que fizemos no corredor, principalmente esta que vou contar, que durou - dizem - dez dias.
O contexto inicial era piscina cheia no centro da sala, som e luzes no máximo, todos bonitos e arrumados. Playlist por minha parte começando a funcionar. Cachacinhas feitas, sacolé, gelatina, catuaba, bolo e cervejas quase geladas…. Corre Carnaval no Corredor. Não sei da onde tiramos energia pra correr assim. Nem lembro exatamente como nos organizamos antes, mas tenho sensação de que foi algo bem em cima da hora. Enfim, no primeiro dia eu estava inteira vestida de amarelo, do chinelo à tiara, e também passei tinta de tecido no rosto… depois passei gelo, enquanto o grupinho do bar inteiro ria da minha situação. Começamos bem, cada um tinha sua função: eu ficaria colocando o som, renan e daniel se revezariam na porta, como seguranças, marcelo, karina e vicente no bar entre produzir, vender bebida e entender quem chegasse no balcão para pedir alguma coisa, Pati ficaria nas fotos e nos reforços durante o dia. Foi, começou. Estávamos todos rindo por nada, qualquer palavra era motivo para rir de nervoso. Eu amo isso. As pessoas foram chegando, principalmente os amigos mais festeiros, muitos entraram direto na água, dançaram, pediram música. Os primeiros dias foram tranquilos, eu inclusive conseguia sair, pedir uma cerveja e um pedaço de bolo de chocolate de graça no bar, mas os dias seguintes foram mais intensos.
Eu ia escrever de forma cronológica, mas se tornou impossível lembrar dos fatos em sequência. Vou escrevendo enquanto lembro, tentando resgatar o ambiente, que confesso, também morro de saudade. Nesse momento meu computador, que era o Dj da festa, já estava pedindo socorro, assim como a caixa de som. Não podia encostar nem na tela do notebook, nem nos cabos que ligavam à caixa, com risco de tudo parar. E parado uma vez, as pessoas iam pra rua. Primeiro desafio, acertar as músicas. Regra nº1: não repetir. Regra nº2: repetir sempre que um grupo de pessoas pede. Regra nº 3: conseguir dialogar com pessoas bebadas ao lado da caixa de som. Regra nº4: conhecer as músicas parecidas e quando pedirem uma repetida, saber qual outra colocar e não permitir que quem pediu, perceba. Regra nº 5: nunca, em momento algum, deixar a música parar. Tudo isso, com a tela 95% apagada. Digo dessas regras hoje… depois de já ter errado todas, é claro. Regra nº 6 e a melhor: depois da 1h30, não existe repetição.
As pessoas estavam chegando aos poucos. Pessoas novas que nunca tinham estado no Corredor, isso era legal e decepcionante ao mesmo tempo. Mas era carnaval, optamos por não pensar nos esforços de fazer pessoas se interessarem por arte e por espaços como o Corredor. De alguma forma estávamos chegando nas pessoas, pela festa, mas no fundo, sinto que alguns de nós estava muito feliz acreditando que essas pessoas iriam voltar para um exposição em algum outro momento... Enfim, voltando. O combinado era sempre começar às 22h e terminar às 3h. Às vezes perguntavam pelas redes sociais se podiam chegar antes, mas isso era completamente inviável para nós, por que em dois dias eu mesma já estava exausta. A música acabava às 3h, mas ainda ficávamos de conversinha, comentando tudo que tinha acontecido de bizarro na noite (e tinham muitas dessas histórias), eu chegava em casa em torno das 5h. No outro dia, tinha limpeza, reorganização do bar, sem contar a ressaca física e moral.
A noite ia chegando e a cada minuto tinha mais gente mergulhando na piscina, onde os níveis de qualidade da água já estavam bem baixos… Nos primeiros dias deixamos uma toalha comunitária, tapetes em volta da piscina, lonas, na esperança que tudo não virasse água… virou. E uma coisa que hoje eu poderia constatar, é que o Corredor é muito resistente a água. Já choveu, já alagou, já umedeceu até o teto. Dizem que ele é de peixes… e eu acredito em signos.
O domingo foi o dia mais cheio e, em princípio, seria o último dia (ou era terça?). Mas no final, não foi. Fomos obrigados a estender a mais um final de semana. Teve gente de toda universidade lá, de todo lugar de Pelotas, vi gente que estudei junto quando criança. Fiz amigos da biologia, da enfermagem, vi professores no alto da madrugada no Corredor, ninguém esperava essa explosão de gente, tinha momentos que eu achava que não íamos dar conta e muitas vezes não demos. Lembro de estar muito cheia a pista de dança, a piscina e a rua e eu ficava no canto do canto do canto de uma sala, e só enxergava isso mesmo. Em algum momento percebi que eu era a única da ‘organização’ lá na frente. Desses momentos não temos muitas fotos... Era entre 150 pessoas e eu, atrás de um computador tentando enxergar que próxima música ia tocar. O resto do pessoal estava todo dentro do bar, correndo, ligando e desligando liquidificador e tentando controlar as vendas. Eu claramente não fiquei no caixa por que o pedido de pagar 4 ao invés de 5 sempre vem e eu não sei lidar, esse era o papel do Marcelo no bar. E voltando a pista, à minha função, passei por poucas e boas, que não cabe colocar todas aqui, mas lembro de quase tudo e isso me abre um sorriso no rosto. Teve pessoas sentando na minha cadeira e desligando o computador, teve gente que me puxava para dançar e também fui quase jogada na piscina. Foram momentos intensos. E ter sido Dj por alguns dias foi quase um estudo sociológico, eu conseguia induzir as pessoas a virem pra pista de dança de acordo com a música que eu colocava… Pabllo Vittar sempre causava isso, agradeço a ela o sucesso do Corre Carnaval, fez completa diferença. Eu ficava assim, imaginando ter o poder de ver as pessoas entrarem correndo da rua para vir dançar na salinha do Renan, era a melhor parte.
Em algum dos dias, também se iniciou o carnaval da cidade, que nesse ano estava com uma super estrutura do lado do Corredor. Aí o Corredor explodiu de gente mesmo, a festa já era na rua. Gosto de pensar que nesse dia, o Corredor conseguiu juntar todas as tribos. E para concentrar o pessoal nas primeiras salas e na rua, deixávamos a sala do meio do ateliê fechada. Lá ainda tinham alguns trabalhos ainda e coisas nossas do ateliê - por isso que tenho a sensação de que o Carnaval foi organizado na última semana, não estávamos tão preparados... A sala era fechada com uma madeira encostada e uma placa de “não passe” e até que nada demais aconteceu ali ao longo das noites. Só que teve um dia, desses extremamente cheios, que já estava por acabar - e acabar era bem fácil, porque parando a música, como falei, os corpinhos subconscientemente entendiam. Mas, em questão de 10 minutos, ainda estava tocando música, entrou uns seis policiais militares, fardados com armas e coletes, e eu sempre me impressiono com isso. Não podia acontecer nada com aquela casa, era alugada. Parei a música na mesma hora, o que fez a Pati e os outros perceberem os novos visitantes. Foi tensão, a casa se esvaziou em questão de milissegundos. Atravessei o corredor rápido na frente deles, como quem acendia as luzes e tirava o lixo do chão de uma festa sendo finalizada. Eles passando pelo corredor, empurraram a “porta-madeira” da sala central, caiu em cima de algumas mesas e quebrou vidros de alguns trabalhos. Queriam saber o que estava acontecendo, quem era responsável e fizeram muitas perguntas repetidas e foram embora. Foi intenso, fiquei nervosa, mas a melhor parte foi uma amiga nossa, que geralmente ficava até depois do fim e pegávamos Uber juntas pra casa, que falou: gente, não vai dar mais pra vocês continuarem, acho que é melhor parar com as festas, eles vão voltar. No outro dia, eles não voltaram, mas ela estava lá, dançando de novo. Risos.
No meio da semana, trocamos a água da piscina. Ou melhor, a pati quem fez isso. Eu estava no fundo do corredor, e não era possível nem chegar perto da sala em que estava a piscina, por que tinha um cheiro Bem Específico. Encontramos de tudo lá, moeda, chave, meias, óculos. Muitas coisas se perderam no Corredor e temos um pequeno acervo de coisas ainda. E falando em cheiros, lembro que em um dia desses, dias em que a pista de dança estava cheia, alguém, algo ou o ambiente estava com um cheiro horrível, mas aparentemente só eu sentia, por ser a única ali tentando se manter a sanidade para administrar tudo aquilo na minha frente. Lembro de ir correndo pedir socorro a Pati, ela me deu incensos... eu levei pra pista e fiquei com aquilo na mão durante umas 2 horas. As pessoas achavam que eu estava fazendo uma pose espiritual, sensitiva…. quem dera.
O último dia, não lembro muita coisa. Muitos amigos já estavam com dó de todos nós e para compensar me traziam cerveja. Era outro domingo, e já estava mais tranquilo o movimento. Lembro que nessa época eu também estava me mudando de casa e nesses últimos dias passei a dormir no corredor. Era 2h53, eu lembro exatamente, faltava 3 músicas para acabar, eu entreguei o som para o Renan, que fez uma grande bagunça, mas já ninguém mais estava preocupado com isso, tenho a sensação que curti a festa em 7 minutos e depois fui dormir, nos fundos dela. Não faço ideia de como tudo acabou, mas uma coisa eu lembro: acordar no outro dia com muita dor de cabeça ouvindo um tilintar de metal. Eu levantei, eram umas 11h da manhã, olhei pra mesa da Pati, e estava lá o Renan contando as moedinhas do bar. Era segunda-feira, 11 de março, dia de pagar o aluguel.
A Thaís estava certa.


