
Desembaçando o olhar para enxergar a vista
por Karina Nascimento
muita sede ao pote...
Hoje é um sábado úmido, enquanto tiro a pressão da panela onde cozinhou o feijão, as janelas embaçam. Me aproximo, passo a mão no vidro e enxergo parcialmente a varanda. Chove lá fora. Gosto da sensação de passar a mão no vidro e enxergar o que está do outro lado, esclarecer a incerteza ou trazer à tona o que com o tempo perdeu definição. Devo dizer que episódios de turvação como esse são comuns por aqui, isso porque Pelotas é uma cidade extremamente úmida, de dar agonia. Tudo mofa aqui. Em função da água que não cessa de tomar conta das coisas, é preciso ser muito cuidadoso com roupas e móveis. O motivo é que a umidade é tão intensa, que em alguns dias do ano — em especial no inverno — a água chega a escorrer pelas paredes da casa e de alguns móveis. Roupas, quando lavadas, levam dias para secar e ainda correm o risco de ficar com cheiro de cachorro molhado. As madeiras, quando não esverdeiam, incham danificando os móveis que hoje em dia apresentam qualidade duvidosa. Apesar da agonia de sempre me sentir imersa em um nevoeiro, fico fascinada com a ideia de que essa circunstância revela a presença do tempo nos ambientes. A casa se mostra tão orgânica quanto nós.
Acredito que são dois os meus desafios mais persistentes desde que me mudei para cá: a umidade e a minha formação. Do primeiro, já comentei brevemente e pretendo seguir sinalizando as suas aparições ao longo do texto. Mas antes de começar a falar do segundo, me apresento:
Me chamo Karina, no momento tenho 23 anos e tenho uma gata, Charlotte. Sou natural da capital de São Paulo, mas apesar de vir de cidade grande apresento comportamentos…. eu diria ingênuos*. Trabalho desde os 17 anos, por necessidade, claro, mas também por que sempre procurei me fazer autonomamente; também porque acredito que trabalhar ensina muito sobre a vida. Me considero uma pessoa esforçada, desde sempre procurei fazer o possível para conquistar aquilo que eu acredito que valha o esforço.
Hoje, trabalho por um ateliê compartilhado, Corredor 14. Sim, escrevi certo, trabalho por um ateliê, pela permanência dele. Pela vontade de vê-lo alcançar públicos e de seguir contaminando as minhas práticas pelo fazer dos outros; mas principalmente por acreditar que ele vale o esforço. Apesar de dividir um ateliê, devo informar a você que não sou artista, pelo menos não no sentido “prático” do ofício (acredito que você irá me compreender mais para frente), entendi isso na minha caminhada. Atuo no Corredor desde 2018 junto com mais seis colegas, todos nós estudamos a mesma faculdade: Bacharelado em Artes Visuais, na UFPel. No momento, dois de nós se formaram e os demais (incluindo eu) encontram-se nos momentos finais do curso, se tudo der certo nos formaremos no ano que vem, 2021.
O ateliê surge de um brainstorm coletivo. Primeiro entre quatro — Daniel, Vicente, Marcelo e Renan —, e depois somam-se mais três — Eu, Rafa e Pati (as três Marias, como diria a Patrícia). Acredito que a história sobre o nascimento do Corredor dívida opiniões, na verdade perspectivas. Assim como diria a Rafa: na falta dos outros olhares, me aproprio do meu e sigo. E para mim, o Corredor começa no calor da vontade de concretizar um projeto coletivo.
A história que vou narrar a você é a minha lembrança favorita a respeito do Corredor, ela se passa em um momento em que ainda não havia ateliê, nem “grupo coeso”, nem “ranço”* de qualquer natureza. Em 2017, nos encontrávamos em nosso segundo ano de curso e no terceiro semestre, todos nós estávamos na mesma turma da disciplina de introdução à escultura com a Martha. Naquele momento, muito em função da disciplina, desenvolvemos trabalhos que buscavam pensar a obra como extensão do corpo (cadeiras, salas, capacetes, roupas e quadros).
Terceiro semestre ainda é início de curso, e considerando isso, muita novidade se apresentava a todos nesse contexto. Foi o momento em que começamos a ter os primeiros contatos com os ateliês introdutórios, além da escultura, fazíamos também pintura, gravura e desenho da figura humana e naturalmente os processos inerentes à cada uma das produções atravessavam o fazer de todos. Além disso, nesse momento também começamos, vagamente*, a ouvir rumores a respeito de editais — todos nós temos em comum uma colega chamada Ana Júlia, que inclusive foi nossa monitora no ateliê de introdução à pintura, e com frequência a gente ficava sabendo que ela havia passado com suas pinturas em salões.
Inícios costumam ser carregados de novidade e empolgação, e conosco não podia ser diferente. Estávamos cheios de energia e abertos para todas as possibilidades de experimentação que pudessem surgir, e foi nessa abertura que entrou, em setembro daquele ano, uma proposta insana.
Um dia, ainda neste ano, Renan me convida para uma reunião que não entendi de cara o propósito, imaginei que fosse alguma coisa relacionada ao Diretório Acadêmico*. Acredito que tenha sido numa sexta-feira, chego no ateliê de escultura e além da Rafa e Renan, encontro Vicente, Marcelo, Patrícia, Daniel e a nossa colega Lorena. Estranho, mas me mantenho atenta. A proposta foi a seguinte: havia um edital, promovido pela prefeitura de Caxias do Sul, de chamamento para propostas curatoriais. A ideia dele (Renan) era desenvolver uma exposição propositiva — com os trabalhos que desenvolvemos na disciplina da Martha — com obras que ativassem o corpo; e ele nos convidou por perceber que os nossos trabalhos, juntos, possuíam uma aproximação que convergia com a sua proposta. Um detalhe muito importante, que é o que dá graça à lembrança: tínhamos apenas uma semana para submeter a proposta*.
A empolgação foi coletiva e, apesar da adrenalina de saber que o prazo era apertado, todos confiaram na possibilidade de fazer a proposta acontecer — seja pelo conforto do suporte coletivo, seja pela vontade de se aventurar em um horizonte incerto, mas sedutor — e aceitamos o convite sem pestanejar. Do aceite, passamos ao levantamento de tudo que seria necessário desenvolver nesse curto prazo: criação de portfólios, escrita de texto curatorial, definição de título, refazer trabalhos e fotografá-los, desenvolvimento de currículos, impressão do material e envio de tudo pelo correio*.
Foi uma árdua semana, mas apesar do cansaço a semana foi leve em função da distribuição do peso em reuniões, diálogos e auxílio entre todos os envolvidos. Muita coisa aconteceu, mas o principal dia que eu quero enfatizar nessa saga toda é o último, o dia do envio.
O último dia — como sempre quando se trata de nós — foi o mais longo. Toda vez que me lembro dele me sinto em dos filmes da franquia Missão Impossível, dadas as imprevisibilidades que passamos. Nesse dia ainda faltava a finalização dos portfólios, revisão da documentação, impressão de tudo e postagem no correio. Apesar de não serem tantas atividades, a maioria de nós percorria a cidade a pé, fator que alargava o tempo de resolução das etapas e fazia com que qualquer imprevisto ganhasse uma proporção muito maior. Outra preocupação era: O correio fechava às 17 horas.
Para que pudéssemos dar conta de tudo, nos dividimos para otimizar o tempo, então uns ficaram responsáveis de enviar o material para impressão na gráfica, outros retiravam o material, enquanto outros guardavam lugar na fila do Correios para evitar imprevistos na hora da postagem. Eu era a pessoa que aguardava na agência, pacientemente, até que me trouxessem o “pacote de ouro” para envio — isso já eram mais de 16 horas. Finalmente, chegam Daniel e Renan com o material. Ufa! Menos mal.
Tudo ia bem, até que na revisão da documentação, pasmem: De acordo com a solicitação do edital, o proponente — no caso o Renan — precisava fornecer seu número do PIS. Não estava lá. Renan, nervoso com a situação, decide pegar a bicicleta do Daniel e voltar em casa para buscar o PIS e preencher a última informação que faltava*. Mas antes de ir, percebendo que faltavam 20 minutos para fechar a agência, ele avisa que, caso ele não volte a tempo, que eu envie do jeito que está.
— Ok, corre então!, eu disse a ele.
Às vezes não nos damos conta do perigo de certos imperativos...
Os minutos foram passando e nada dele voltar. “Deve ter perdido, igual perde a chave de casa”, pensei comigo. A agência fechou e percebi que era a hora de enviar do jeito que estava. Mandei, dever cumprido.
Voltamos, eu e Daniel, para o ateliê de escultura para encontrar o pessoal. Chegando, fomos surpreendidos com uma série de questões sobre o sucesso do envio.
— Deu tudo certo!
— Ufa!, eles disseram.
Quando eu ia soltar meu primeiro chingo sobre o fato de o Renan não ter retornado para levar o tal número do PIS, ouço a notícia de que ele havia sido atropelado. Me apavoro, questiono, mas ninguém sabia me dar detalhes do que tinha acontecido. Quando viro as costas, entra ele, mancando, todo arranhado, sujo e sangrando pouco em alguns lugares. Antes que qualquer um pudesse perguntar qualquer coisa, ele pergunta, se dirigindo a mim e ao Daniel:
— Vocês enviaram os documentos?
— !!!!!!!!
No momento em que descrevo esses acontecimentos, os faço rindo. Um riso de incredulidade, mas também de carinho. Incredulidade, pela quase tragédia anunciada*; e carinho por atribuir à gênese do Corredor a lembrança de um momento de potência conjunta. Potência essa que, como qualquer energia, está fadada à finitude. Mas que, no entanto, como qualquer energia, também é possível mantê-la, desde que se realize a manutenção necessária para tal.
Uma canoa não navega nem se orienta sem que seja necessário remar.
Trago essa memória, não apenas para apresentar uma outra perspectiva de início, que demonstra a ingênua euforia coletiva — como diria Renan. Mas também para pontuar que antes do Corredor se sediar em uma extensa casa portuguesa, fora da alçada da universidade, a motivação de sua existência parte desse lugar. E acredito que seja isso que atribui a nossa singularidade enquanto grupo.
A criação tem muito a dizer de uma pessoa. Malícia e jogo de cintura não são coisas que se nasce, mas sim que se aprendem na marra. Independente de ser bom ou não, vim começar a aprender as regras do jogo aqui, em Pelotas. Quem diria! Uns saem da província para crescer na cidade grande, eu por outro lado, tive que vir para a província para entender que independente de estar lá ou cá, é preciso antes, se entender pequeno para crescer.
Martha esses dias me deu um puxão de orelha a respeito do uso das aspas. Segundo ela, é importante que a gente assuma com postura firme os nossos posicionamentos, independente deles gerarem desconforto em quem os receber. As aspas nesse contexto apenas colaboram para descredibilizar a nossa posição, na medida em que relativizam a posição que tenta se afirmar. Concordo com ela… e por concordar eu justifico seu uso aqui: Quando eu trago as duas expressões, o faço a fim de remeter a duas perspectivas, a primeira um olhar de fora (do público, de frequentadores e amigos), e a segunda de dentro (nossa sobre nós, enquanto grupo). Sempre que converso com pessoas e o Corredor se torna parte do assunto, sempre se pontua a nossa união enquanto grupo como se fôssemos uma coisa só. No entanto, tanto não somos, quanto nossas individualidades são tão prevalentes no grupo que pouco se compartilha de subjetividade. Nos conhecemos pouco (infelizmente), e o desconhecimento acaba gerando intolerâncias silenciosas (o tal ranço), que não são bem ranços, mas ignorâncias pela falta de partilha. As aspas são quase uma ironia, é e não é aquilo, porque no fim das contas nada nunca foi definido (Renan vai esclarecer isso…).
Vagamente, porque apesar de ouvir, não tínhamos muito claras as dinâmicas. Nem de como e nem onde encontrar esses editais, muito menos de como submeter propostas e se inserir nesses contextos competitivos da arte.
Na época eu, ele e Rafa atuamos no Diretório Acadêmico (DA) e por esse motivo, também, vivíamos juntos para planejamentos e resoluções referentes ao curso.
Renan gosta de fazer as coisas no susto, ele diz que isso confere mais emoção às experiências.
O que nos salvou e permitiu que essa loucura fosse possível, foi a realização do SIIEPE, um evento anual que a UFPel promove onde ocorrem apresentações de trabalhos acadêmicos ao longo de uma semana. Para isso, a universidade suspende as aulas durante esse período para viabilizar a participação do máximo de alunos no evento.
Informação importante que talvez você se pergunte: Renan não tinha celular na época, por esse motivo não tinha como ele nos contatar à distância.
No fim das contas, independente do número do PIS, a proposta passou. E a Corpo que te Cabe aconteceu, não apenas em Caxias do Sul, como também em Novo Hamburgo. Quanto à quase-morte do Renan, bom… alguns podem dizer que foi um exagero imprudente, outros que foi um empenho desmedido, e portanto louvável. Gosto de pensar que, em algumas circunstâncias, os fins justificam os meios. No nosso caso, o meio é a nossa motivação.
A perda, na verdade, é a presença da dúvida. Ela faz parte de qualquer processo.
Pedro França, em sua fala durante o seminário Longitudes: Formação do artista contemporâneo, realizado na Casa do Povo, em 2014, comenta sobre duas acepções de artista: O artista como “produtor de si”, de sua imagem, de sua produção e das formas de apresentação delas; e o artista como “gestor de si”, da sua carreira e como atuante das outras esferas de produção cultural, que resulta em um consequente controle de todo o processo de produção, exibição, circulação e até monetização do seu trabalho. A segunda acepção, segundo ele, resulta em uma legitimação da condição precária de atuação desse profissional, conferindo a ele total responsabilidade de sua desvalorização. Isso ocorre em função da absorção desse modelo de trabalho pelo sistema capitalista que atribui ao freelancer, ao artista e ao terceirizado, o rótulo de “autônomo”, “independente” e, principalmente, daquele que “ama o seu ofício” e por esse motivo se dedica integralmente a isso à qualquer custo.
Existe o ciclo do charque, rota turística que serve mais para exibição de um saudosismo do que de um reconhecimento lúcido de sua história.
No livro Arte-Educação no Brasil, Ana Mae Barbosa nos apresenta um breve apanhado histórico do processo de institucionalização do ensino da arte no Brasil, e consequentemente a luta para assinalar a sua relevância enquanto área do conhecimento.
É importante comentar aqui também o recente e importante trabalho do professor Luís Rubira nesse processo de resgate da história de Pelotas. Através de artigos publicados no Diário Popular, ele resgata uma série de fatos e figuras importantes que marcaram o cenário cultural da cidade através de uma ampla pesquisa em arquivos datados dos séculos XIX e XX.
Essa noção de revolta me norteou na elaboração de uma proposta curatorial que encaminhei no início deste ano para Minas Gerais. O nome dela é Acorda Amor!, o conceito de revolta norteia a exposição. Infelizmente ela não passou no edital, mas de qualquer maneira se eu não conseguir fazê-la em outro lugar ou espaço, farei aqui mesmo, o Corredor me possibilita isso.
cuidado para não entornar o caldo...
Há dias que a cidade está coberta de uma umidade que não cessa. Tem chovido muito, e quando para de chover, não é suficiente nem para secar a rua. Quando o clima fica assim os dias são brancos, como as noites descritas por Dostoiévski. O céu fica uniforme como um papel e a terra, assim como tudo que há nela, fica meio esbranquiçada também. Minha avó costuma dizer que quando o dia começa enevoado é sinal que o sol vem em seguida, como se fosse um anúncio da natureza informando que tudo passa.
Em uma graduação em Artes somos acompanhados por um conceito muito parecido com isso que minha vó dizia pra mim, o conceito de processo. Trata-se da noção de que nada do que produzimos ou conhecemos está dado à priori, sendo necessária uma dedicação contínua para que se atinja o resultado desejado. Outra coisa que me chama atenção nesse conceito é a compreensão de que não importa a ideia, o empenho e a habilidade, o resultado nunca será igual ao idealizado. O processo é sempre acompanhado de indefinição e incerteza, fatores que colaboram para que em algum momento a gente acabe se perdendo* no caminho.
Criar depende da disposição do artista em aceitar o imprevisto e tomar posição diante do que já se apresenta estabelecido. E tenho pra mim que para isso, é necessária a apropriação de uma consciência crítica do fazer. Isso significa olhar com atenção para o que é feito e lapidar as imperfeições, não com a ideia de que o perfeito exista em algum lugar, mas com a ambição que se possa atingir o melhor possível com o que se tenha à mão, aqui e agora, não depois.
Por um lado, eu acredito que a graduação foi (e é) muito importante, por sempre nos lembrar que criação é pesquisa, empenho e principalmente um processo contínuo não apenas individual, mas uma construção conjunta através do diálogo e do compartilhamento de fazeres diversos entre professores e colegas; por outro, acredito que a universidade seja a principal responsável pela manutenção da ingenuidade dos artistas.
Penso que essa ingenuidade é sustentada — dentro do processo de formação — pela dificuldade de assinalar o lugar do artista no campo produtivo, seja da própria arte, como também dentro das relações de trabalho contemporâneas, onde o artista é sempre uma figura voluntariamente marginal* nesse contexto. O artista, ao longo da graduação, é aquele que se detém por horas no trabalho em seu ateliê produzindo muito (em quantidade mesmo), e de preferência, tudo com o máximo de similaridade e “coerência” possível — afinal, desvios são sinais de imaturidade. Nesse contexto, também é muito importante que o artista exponha, porque isso é o que garantirá que o seu trabalho exista no mundo, ao mesmo tempo que serve de medidor da qualidade da obra. Ou seja, a equação é simples: quanto mais exposições você participa, melhor artista você é. Observem que nessa equação, subsistência financeira nem foi cogitado como denominador relevante.
São duas coisas que estão em jogo quando o assunto é produção de obras e participação de exposição. A primeira é a visibilidade, a tal moeda de troca do artista, o alcance do trabalho por curadores e críticos e o acúmulo de capital simbólico que pode vir a garantir um lugar no tal campo artístico. A segunda seria a fruição do público, o quanto o trabalho produzido possui a capacidade de causar uma possível aproximação/identificação desse sujeito com a obra (uma tal de arte-vida).
Quando pensamos em formação, associamos isso a uma qualificação preparatória para aceder a um mercado de trabalho na área escolhida, ou seja, formação enquanto profissionalização. No entanto, no exercício diário de produção e estudo de arte é possível perceber que esse campo de atuação não se mostra muito claro. Isso porque aqui em Pelotas não existe uma movimentação — externa à universidade — de produções contemporâneas de arte e outras manifestações culturais, tampouco instituições de arte e cultura muito expressivas, em especial nas artes visuais.
Dessa forma, me parece que o curso não consegue estabelecer parâmetros de inserção pelo fato de a própria cidade não apresentar subsídios para que essa pauta possa ser discutida de maneira mais palpável. Sendo assim, o curso se mantém em discussões experimentais de produção artística, ao mesmo tempo que procura incentivar uma consciência poética desse fazer sem, no entanto, dar subsídios para esse aluno seguir produzindo após essa etapa de formação.
Como já foi mencionado acima, o Corredor parte desse ambiente acadêmico, e justamente por isso, acredito que tenhamos nutrido ao longo do nosso percurso, a ilusão de que o ateliê seria o nosso lugar de prestígio e uma ponte para esses outros circuitos legitimadores da arte. Afinal, mais do que nos inserir em espaços institucionais de arte, criamos o nosso próprio. De produção, exposição e divulgação, não apenas do nosso trabalho, mas de outros artistas jovens em Pelotas. Para nós isso parecia muito inovador, mas não é. Tanto não é inovador, como esse movimento também é tão efêmero quanto os espaços que nos antecederam, pertencendo a um fluido processo de ir e vir da cena pelotense.
Parece que Pelotas carrega consigo esse constante indício de passagem, seja através de seu clima, pelo constante tombamento de prédios históricos que dão lugar à especulação imobiliária ou pelo tráfego de estudantes que chegam e partem — parecendo que todo ano a cidade se renova.
Pelotas carrega uma tradição de opulência cultural e econômica surpreendente que atinge o seu auge ao longo do século XIX. É evidente que os motivos que acompanham toda essa fartura não são de se orgulhar — toda essa glória se deu às custas da violenta exploração da mão de obra escrava nas charqueadas, que na época era a indústria de carne bovina da cidade*. No entanto, apesar de toda essa carga de violência e exploração, a cidade nesse período inicia um processo de aculturação através da demanda das elites da época que solicitaram espaços culturais de encontro e lazer. Nesse período ocorre a fundação do Theatro Sete de Abril, da Bibliotheca Pública Pelotense e uma série de dramaturgos e poetas como o famoso João Simões Lopes Neto começam a emergir; assim como também ocorre — a partir do final do séc XIX e início do séc XX — uma grande circulação e migração de artistas para a cidade, configurando os primeiros ateliês e cursos livres de arte no município.
Sim, podemos dizer que a história cultural de Pelotas está ligada a uma história cultural das elites brasileiras. Considerando que essa demanda cultural que Pelotas tenta suprir nesse período áureo, se ancora na satisfação dos desejos de modernização das classes dominantes a partir do contato com figuras importantes com visibilidade no exterior e na importação e trânsito dessas figuras na cidade, legitimando então o seu status de Atenas do Sul. Isso é relevante porque apresenta um fator sintomático na maneira como a arte é culturalmente vista ao longo da história, como um acessório e um instrumento de “mobilidade e classificação social e não como uma atividade com importância em si mesma”*.
Nesse período áureo, as produções e grandes feitos culturais circulavam através da imprensa nos jornais da cidade, tendo O Noticiador e, posteriormente, o Diário Popular como dois grandes porta-vozes dessas realizações que hoje podemos ter acesso. As artes, hoje ditas visuais, circulavam na cidade através de pequenos textos críticos desenvolvidos por figuras como Nelson Abott e Ângelo Guido, publicados no jornal, isso já no século XX. Conforme a situação econômica da cidade começa a ficar mais delicada, esses espaços de fruição cultural, bem como a circulação de produções artísticas, começam a ficar mais escassos, ocasionando um processo de turvação dessa história que constantemente precisa ser resgatada e revisitada. Nesse sentido, é indiscutível a importância da UFPel — antiga Escola de Belas Artes — no processo de resgate, manutenção e visibilização de artistas e produções que foram marcos na história da cidade*. Dela também surgiram uma série de iniciativas, independentes ou extensionistas, a partir do final do séc XX, de viabilização de espaços expositivos de arte contemporânea na cidade*; projetos desenvolvidos por alunos, ex-alunos e professores que contribuíram com esse fluxo.
Como um rio, Pelotas possui momentos de cheias e baixas na cena cultural; e como um rio, ela se movimenta transformando constantemente os seus produtos e produtores. O Corredor surge nesse momento de baixa no contexto de Artes Visuais Contemporâneas da cidade, no momento em que nós enquanto grupo, enxergamos uma brecha onde poderíamos inserir uma possibilidade de desvio do que foi estabelecido como espaço expositivo, ateliê, exposição e arte contemporânea. Quero chamar esse nosso movimento de revolta.
Nosso movimento não é inédito — nem aqui nem no resto do Brasil —, mas a especificidade do lugar onde ele está e a maneira como ele foi (e é) conduzido por nós, assinala características muito próprias a estudantes de artes em processo, que topam tudo pela possibilidade de experimentar a novidade. Quando eu trago a noção de revolta, não o faço apenas como analogia a movimentos de vanguarda, mas como uma inquietação. Quando Hélio Oiticica escreve em um de seus Parangolés a inscrição “Incorporo a revolta”, é possível pensar numa tomada de consciência do sujeito no mundo, seu reconhecimento como “ser social”, alguém que toma posição*.
Dessa forma, o Corredor me lembra sempre que incorporar a revolta é uma ação que parte de uma consciência individual para um confronto coletivo. Daniela Name, ao analisar a exposição Levantes, sob curadoria de Didi-Huberman, faz o seguinte comentário: “Se eu estou em uma situação que me desconforta, posso imaginar uma outra – e a partir daí desejar o imaginado”.
Acredito que o Corredor não existiria se nós sete não tivéssemos nos questionado em algum momento sobre a estabilidade do nosso processo de formação, foi da existência desse desconforto e da percepção da força do trabalho conjunto, que se reuniu a euforia coletiva do “fazer acontecer”. É nessa concepção de revolta que enxergo o Corredor 14, uma criação colaborativa de alternativas de produção, apresentação e circulação de arte em um cenário cultural desafiador.

deriva...
[...] se as coisas derivam, é em seu ir e vir que é preciso apanhá-las.
(Nuno Ramos, Deriva)
Para manter a integridade do meu texto, antes, preciso confessar uma coisa: eu nunca gostei de grupos. Sempre alimentei críticas severas à dinâmica organizacional e relacional coletiva, o motivo é que em um grupo existe uma certa uniformização dos comportamentos, gostos e opiniões que eu sempre considerei (e ainda considero) muito problemática. Sem contar que também acho que as pessoas se tornam um tanto perversas na presença de mais de uma pessoa, acredito que isso ocorra em função do campo de disputa velada que se estabelece nesse contexto.
Sendo assim, eu sempre procurei preservar a minha individualidade para não ser anulada pela coletividade. Reconhecendo que não apenas o contexto de formação, mas o social como um todo é assumidamente coletivo e necessita do contato entre os seres — isso se escancara nesse contexto de pandemia —, procurei discretamente transitar entre pessoas e grupos, mas sem me assumir como parte de nenhum. Outra confissão que faço a você é: Me assumir parte do Corredor 14 foi uma das decisões mais difíceis que tomei até hoje.
Como já mencionei no início, o Corredor é constituído, até então, de sete artistas, que no momento de sua reunião eram alunos universitários de Artes Visuais. Um grupo de sete iludidos que um dia acreditaram que ascenderiam à fama com o ateliê, mas que também acreditaram que a euforia coletiva nos levaria a algum lugar, juntos. Digo a você que a minha decisão de topar fazer parte dessa loucura foi propor um desafio a mim mesma de ceder à coletividade, acreditando que isso me ajudaria a crescer como pessoa e como profissional. Afinal, para mim desde o início, independente da ingenuidade que eu partilhava com os demais, sempre assumi o espaço como meu emprego informal. Quase uma sociedade empresarial — risos — e eu realmente acreditei que chegaríamos lá um dia, mas me parece que hoje 2020 nos encontramos no mesmo ponto em que iniciamos a dois anos atrás, em 2018. Só que no momento, sem aquela euforia coletiva que nos dava ânimo de continuar.
O princípio que norteia um grupo, pra mim, é a partilha, a ideia de que todos têm a contribuir para que um projeto se desenvolva e se encaminhe da melhor forma possível. Mas para que isso se afirme, é importante que todos os envolvidos coloquem os seus posicionamentos, opiniões e discordâncias, porque é através do dissenso que se constrói algo sólido, não pela homogeneidade e passividade. O confronto, por mais duro que seja, constrói e auxilia no amadurecimento tanto da proposta, quanto dos indivíduos que ela compartilham. Porém, confronto é o que menos se presenciou no Corredor ao longo desse período.
Desde o início, sempre houve uma resistência coletiva em definir o que ele seria. Que ele era um ateliê a gente já sabia, e ninguém questionava esse ponto, mas nós sabíamos que ele não se encerrava apenas nisso. Uma série de nomenclaturas nos perseguiram ao longo desses dois anos, mas a dificuldade de chegar em um consenso fez com que constantemente esse dilema fosse adiado para “uma próxima reunião”. Tenho pra mim que isso acontecia porque, assumir uma nomenclatura significa assinalar um propósito e uma responsabilidade, consigo mesmo e com o espaço, e acredito que nem todos estavam preparados para isso.
Gostaria de fazer um parênteses, antes de voltar a isso:
Eu cheguei a mencionar em algum momento perdido ao longo deste texto, que apesar de vir de cidade grande, ainda sou um pouco ingênua diante de algumas circunstâncias que exigem um pouco mais de malícia e jogo de cintura para permanecer em campo, e a criação familiar colabora muito para isso. Quando cheguei em Pelotas, mais do que pisar em território úmido e naturalmente difícil de caminhar, sabia que estava entrando em uma grande neblina, onde não é possível enxergar o horizonte com clareza. Sair de casa, significava buscar sozinha a mim mesma ao mesmo tempo em que tentava, nessa navegação sem rumo, me localizar dentro do curso que escolhi. Porém, também devo informar a você: Sou muito orgulhosa. Orgulhosa de vaidade ruim mesmo, aquele tipo de pessoa que tem dificuldade de assumir que não sabe alguma coisa e que não quer dar o braço a torcer quando erra.
Acredito que essa resistência em reconhecer o erro ou a fragilidade decorre, claro, da criação, mas principalmente do meu mau encontro com os grupos. Por ser uma pessoa mais discreta e reservada, a minha inserção e posicionamento em grupos era descredibilizada, e essa sucessão de anulamentos me fizeram acreditar que o único modo de me preservar no mundo, era seguir “carreira solo”. Então, a minha aproximação com grupos se dava estritamente em momentos de lazer — onde de fato não existiria subjetividade apenas vontade — e quando era obrigatório, em situações, por exemplo de desenvolvimento de trabalhos para disciplinas (situações em que normalmente eu conduzia o grupo, ironicamente).
Quando eu aceitei entrar no Corredor, apesar de sempre assumir isso como trabalho, eu não sabia o que ele era e muito menos o que eu queria com ele, fator que me deixava insegura. Outra coisa que me desestabilizava constantemente era: antes de ser o meu trabalho, éramos um grupo. Um grupo aliás, que cultivava/cultiva afetos entre si e que por esse motivo se reunia não apenas para trabalhar e conversar sobre o trabalho, mas para se divertir e jogar conversa fora. Eu não estava preparada para isso.
O Corredor era um lugar que me exigia uma inteira presença, como indivíduo e como profissional, e eu não conhecia bem nenhuma das duas. E por esse motivo, não conseguia estabelecer proximidades afetivas com o resto das pessoas e nem apresentar com segurança as minhas opiniões, me calando na maior parte das circunstâncias e, voluntariamente, me anulando diante do grupo e de mim mesma, de novo.
Fecho o meu parênteses aqui. Voltemos ao nosso dilema coletivo de auto-afirmação.
Nós todos sempre reconhecemos que independente da troca entre artistas, o processo de criação é solitário, acredito que seja esse o motivo de sempre negarmos o termo coletivo para referir a nós. No entanto, o maior problema desde o início foi não termos entendido duas coisas, que pra mim hoje são muito claras: Uma coisa é o Corredor 14, grupo de artistas; Outra coisa, completamente diferente, é o espaço físico Corredor 14. Apesar de ambos terem surgido juntos, são independentes um do outro, mas que inevitavelmente se complementam.
Não termos nos dedicado para entender a finalidade do espaço foi um dos nossos grandes erros. Mas o nosso segundo grande erro, e acho que o mais grave e mais persistente, foi (e é) a falta de comunicação clara e honesta entre nós. A dificuldade de concordar ou discordar de alguma opinião, de afirmar se pode ou não ajudar em alguma circunstância, ou até mesmo a ausência em alguma atividade ou evento sem aviso prévio, sinalizaram desde o início a nossa distância.
Como já mencionei, ter um espaço de arte em Pelotas é difícil, mas ter um espaço de arte em Pelotas sem uma organização bem definida para sua permanência e condução é ainda mais delicado. Ano passado foi um ano difícil, para mim e para o ateliê. Em contraste com 2018, que foi um ano eufórico em que aconteceu muita coisa, 2019 foi um ano morno que, apesar da realização de eventos muito importantes e significativos, a energia para fazê-los acontecer quase inexistia. A sensação que eu tenho quando os rememoro é de que fizemos tudo aquilo mais pela sensação de cumprir uma obrigação, do que realmente pela vontade de fazer.
Neste ano (2019), eu estava em processo de desenvolvimento do TCC na universidade e o tema da minha pesquisa, até aquele momento, girava em torno de alguns trabalhos meus em pintura e escultura com transparências. Essa pesquisa era algo que desde o ano anterior eu já nutria um descontentamento, que inclusive foi um dos motivos de ter me desmotivado tanto do curso, quanto do Corredor. A dificuldade de encontrar sentido na minha produção, somada à maçante energia que nos rondava naquele momento começaram a me desmotivar a cada dia que passava. Fomos à São Paulo fazer uma residência no Vão, no meio do ano. Foi uma viagem que me trouxe muita energia e eu realmente acreditei que ela seria um divisor de águas para o ateliê. Não pela ingenuidade de achar que seríamos reconhecidos de alguma forma (e de fato não fomos), mas por ter notado, pelo menos nos momentos de trabalho em ateliê, cujo objetivo síncrono de todos era fazer uma exposição, um apoio e uma dedicação mútua que fazia muito tempo que não acontecia entre nós. Nesse momento também, havia decidido que não terminaria minha graduação naquele ano por acreditar que poderia amadurecer a pesquisa e voltar mais consciente do meu fazer e pronta para dar o próximo passo no ano seguinte (que seria esse, 2020).
No calor de recém ter encerrado uma residência e também pelo fato da Rafa ter saído temporariamente em mobilidade para o Rio de Janeiro, propusemos uma residência no nosso espaço, a Zero Residência Artística, nos comprometendo a dar suporte ao selecionado ao longo de todo o período (três meses). Selecionamos o Pedro Paiva para a nossa primeira edição do evento, artista com uma produção muito potente e com uma vontade de produzir muito boa. Mas, apesar dessas qualidades e da nossa recente experiência em São Paulo, a nossa dedicação para isso não foi a mesma. É evidente que o número de responsabilidades lá e cá nem se comparam, além do ateliê cada um tem o curso e a sua própria vida para dar conta, mas o ponto não é esse. Até porque em 2018 também tínhamos as três coisas e fizemos muito mais. Eu fiquei empolgada com a ideia de conduzir uma residência, mas percebi que não foi um sentimento que todos demonstraram na mesma intensidade, era necessário um impulso que fizesse os demais acreditarem que o empenho valeria a pena, mas eu não tinha nem força e nem coragem para provar isso. Então, acabei parando de remar. Ficamos todos à deriva*.
Foi nesse momento que eu comecei a questionar:
— O que diabos eu estou fazendo em um curso onde, além de não enxergar perspectiva de sustento, não percebo nenhuma contribuição relevante para a minha área. E ainda sigo pagando dois aluguéis por um espaço (apesar de enxergar muito potencial) que não avança por falta de motivação e perspectiva futura?
Passei por um momento de deriva que durou alguns meses. Toda vez que me lembro disso me sinto como em Limite, de Mário Peixoto. Perdida, em um barco com pessoas que eu conheço muito pouco ou quase nada e sem entender o motivo de me encontrar naquela situação. No meu caso, e espero que do Corredor também, não naufraguei. A minha salvação foi a minha revolta.
Nesse momento a chave virou.
Enquanto o Corredor estava aparentemente inerte*, eu ficava matutando sobre o meu propósito diante de tudo que havia produzido até então, e principalmente se eu realmente queria seguir fazendo isso. Aqui sinto a necessidade de abrir outro parênteses.
Antes de escolher cursar artes visuais, queria fazer arquitetura por três motivos: por ser um ofício mais objetivo — afinal, você sabe que quando você concluir o curso você poderá se auto nomear arquiteto e estará apto para isso —, por ser uma profissão aparentemente promissora e por ser próxima às artes (na época eu gostava de desenhar, isso pesou muito na minha escolha). No momento dessa decisão eu estava no terceiro ano do ensino médio e trabalhava como atendente de telemarketing em uma empresa terceirizada. Acho que não preciso me estender muito para comentar o quão péssima era a rotina de ouvir pessoas mal educadas me ofendendo por causa de problemas que eu não tinha culpa, enfim, sempre esteve no meu horizonte me qualificar o máximo possível para mudar a minha realidade e da minha família, mas é claro que também não queria ficar estagnada em um emprego que não me trouxesse o mínimo de satisfação pessoal.
Um dia, na escola, Vitória, minha amiga que naquele ano fazia cursinho, chegou na aula toda empolgada dizendo que encontrou um curso que era a minha cara. Foi ela que me apresentou o curso de artes visuais, lembro que naquele momento parece que uma lâmpada se acendeu na minha cabeça e me animei. Fui pesquisar detalhes sobre o curso e realmente, achei a minha cara, mas ao mesmo tempo fiquei confusa porque não entendi muito bem com o que poderia trabalhar depois que concluísse e deixei essa como uma segunda opção, já que naquele momento acreditava que eu não podia me dar o luxo de me entregar a sonhos muito juvenis e portanto sujeitos à falhas.
Concluí a escola, prestei o enem e não passei. Segui trabalhando, determinada a fazer cursinho em 2015 e prestar para arquitetura. Trabalhava de manhã e estudava pela noite. Foi um ano exaustivo, tudo o que eu mais queria era que as minhas férias chegassem para eu tentar potencializar os meus estudos, já que pelo meu cansaço mental e físico não estava dando conta de acompanhar a carga das aulas. Minhas férias chegaram em outubro daquele ano, e lembro claramente de ter chorado copiosamente ao longo de uma semana inteira por lembrar que elas em algum momento teriam fim e eu teria que voltar para aquele ambiente doentio. Depois dessa situação repensei tudo, e decidi que a partir dali escolheria o curso de artes visuais como minha primeira opção e o principal motivo era: Nunca mais me submeteria a uma situação de perda de sentido tão intensa como a que vivia naquele momento, independente de saber em qual profissão seguiria após a conclusão do curso, era a que eu mais me sentia motivada em seguir tentando entrar na universidade e nela apostei.
Fecha parênteses. Seguimos…
Questionar o meu propósito no mundo sempre foi uma constante para mim. E percebi que depois que entrei na universidade fiz isso muito pouco, justamente por acreditar que tudo que se apresentava para mim, inclusive as oportunidades e projetos, eram tão certeiros e possíveis que se eu me esforçasse muito conseguiria me encontrar em algum lugar e também porque questionar ou até negar tudo isso seria uma ingratidão.
A virada de chave aconteceu no momento que eu assumi pra mim mesma que eu não sou artista. Lembro de um peso enorme sair das minhas costas no momento que assumi isso verbalmente pra mim, sozinha, em um dos meus devaneios diários.
— Uau! Tem certeza?
— Não, mas quero arriscar a aposta.
E assumo a você que foi a segunda escolha mais honesta que fiz, a primeira foi a escolha dessa área.
Mas claro, existem ressalvas nessa afirmação, imagino que não sou artista pareça um pouco radical. Quando eu afirmo isso, procuro deixar de lado a concepção de artista como aquele que produz obras de arte e realiza exposições, que trabalha em ateliê e discute a arte e a vida a partir do seu processo. Para mim ela não fazia sentido, eu não conseguia estabelecer relações concretas entre o meu processo de criação e o meu entorno. Parecia que a minha produção era um monólogo e eu sabia que eu queria compartilhar, seja com o público ou com outros artistas, o modo como eu enxergo a vida e a arte, e assim contribuir com o campo, a minha produção artística não conseguia contemplar essa necessidade.
Dessa forma, deixando de lado essa concepção construída ao longo da graduação, assumi outra definição, que não é minha evidentemente, mas da qual me aproprio hoje: Artista como um pensador. E para isso, não é necessário que eu faça uma escultura para legitimar essa posição, mas o exercício constante de compartilhar e trocar ideias sobre arte, propor exposições, cursos, debates, mediações e qualquer outra possibilidade de compartilhamento que incentivem a dúvida, fazem parte do meu processo de criação e figuram a minha produção artística e pesquisa hoje.
Quando assumi e entendi todas essas coisas, decidi que permaneceria no Corredor, mas não da maneira que atuava antes. Dessa vez me vestiria de toda a minha coragem e me posicionaria o máximo possível para manter o espaço ativo. Isso foi ao longo dos últimos três meses de 2019.
E cá estou eu, hoje, escrevendo esse texto na intenção de que algumas coisas sejam esclarecidas a meu respeito a você Daniel, Marcelo, Patrícia, Rafa, Renan, Vicente e o leitor, que talvez me conheça vagamente pelos corredores do Centro de Artes ou que talvez esteja me conhecendo a partir deste relato que, acredite, poderia ser muito maior. Mas antes de encerrar, gostaria de apresentar, um a um, os demais “corredores” deste espaço até o momento:
A residência aconteceu, houve um ótimo fechamento, os trabalhos do Pedro ficaram incríveis, mas me senti mal por não ter participado mais desse rico processo.
Após a residência ocorreram outras duas exposições no Corredor. Margem de Erro, consequência da banca de TCC da Patrícia e Não se Repete, organizada por Marcelo e Jéssica Porciúncula. Quando comento sobre a inércia do espaço, me refiro à ausência de projetos que envolvam os sete integrantes simultaneamente.

Possui aparência oriental por suas raízes virem do Japão, mas seu sotaque, vivências e gostos partem de uma realidade paulista. Né Charlie Brown? Eu sempre fiquei admirada com a maneira como ele tem facilidade em se aproximar das pessoas, ele tem um carisma que eu invejo muito. Uma inveja boa. É muito inteligente e tem uma produção em arte que além de ser muito bonita, sempre admirei e boto muita fé. É dedicado e caprichado em tudo que faz, isso reflete no trabalho dele também. Mas apesar de muito carismático é tímido e em alguns momentos tende a preservar as suas opiniões para um momento mais adequado. É gentil, prestativo e muito racional às vezes transparecendo uma seriedade, que ele procura reduzir a partir de uma tendência de querer tornar os ambientes e discussões mais descontraídos, o que por um lado eu acho muito positivo e necessário, mas que em algumas circunstâncias tendo a discordar, ele deve saber de quais estou me referindo, rs.
É turrão, teimoso, chegado numa ironia e tem um problema sério com prazos que eu nunca vi igual. É sério, tanto no modo de se vestir em alguns casos, quanto na fisionomia, mas quando você puxa um papo desata a falar. É bem observador, mas é desconfiado, tende a não compartilhar muito as suas opiniões e subjetividades com quem não conhece muito. Entendo bem isso. Apesar da desconfiança e da teimosia, é gentil e parece um bom amigo, daqueles que você conversa por horas e antes de você ir, inventa alguma coisa que te mantenha por mais tempo só pra não assumir que quer que você permaneça ali. Imagino que ele deva saber também que gosto muito do trabalho dele, e espero que siga produzindo.


É a Bruxa desse ateliê. É por causa dela, também, que o espaço tem esse nome. Simpatizante da astrologia e numerologia, procura conduzir suas escolhas e condutas através dos astros, que também são sua fonte de autoconhecimento. Tem personalidade forte, mas é muito sensível. É sonhadora, idealista e preza muito pelo trabalho conjunto, não é a toa que propôs o MOLDE em um momento de carência de coletividade entre os corredores. É sempre acompanhada de seu amigo e guardião TAZ, um dog muito querido, mas que tem personalidade forte tanto quanto a dona, então é bom ser cuidadoso quando for interagir com ele. Patrícia é uma FIGURA, não precisa ser muito próximo para perceber isso, uma pessoa contagiante pela sua singularidade e energia e é chegada em um vinho, mas só em taça, por favor!
É o sorriso ilustre do ateliê, de qualquer lugar na verdade. Nunca vi alguém pra esbanjar mais felicidade que essa menina. É otimista, empolgada e bem determinada. Algumas coisas sempre me surpreenderam nela: a sua sinceridade, de sempre procurar apontar suas opiniões com franqueza; sua humildade de saber reconhecer suas fraquezas e procurar aprender com elas; e a sua generosidade, essa mania de sempre incentivar as pessoas a fazerem o que acreditam e ajudar nisso também. É muito inteligente e sabe disso, e como qualquer pessoa inteligente e perspicaz, sabe usar isso a seu favor. É a desenhista oficial do Corredor, nossa logo foi ela quem fez, assim como praticamente todos os desenhos de cartazes que a gente já divulgou, em especial do 7 em sala. É muito brincalhona e em alguns momentos solta umas gargalhadas que lembram um porquinho, Renan diz que nesse momento ela invoca a Peppa Pig, eu só consigo rir junto.


É um cretino. Imagino que ele tenha levado um susto lendo isso, te peguei! Mas não deixa de ser verdade. Renan é a rainha do deboche. E isso serve tanto pra rir das coisas que não deram certo na vida, porque afinal tudo faz parte, mas também pra cutucar alguém que ele ache que precise de uma dose de "noção". É regido pelas sete leis Herméticas, não é à toa que tem uma tatuagem da medicina em um dos braços (piada interna). Esse Hermetismo todo reflete na sua racionalidade, responsabilidade e obstinação diante de tudo que se propõe a fazer. Apesar de meio chucro em alguns momentos, por não saber demonstrar muito claramente seu afeto pelas pessoas, é muito carinhoso, generoso e chato. É chato porque ele sempre vai te apontar com sinceridade algum problema que ele encontra em alguma coisa ou circunstância, em alguns momentos sem um filtro, mas sempre pra fazer com que você seja o melhor que você pode ser pra você mesmo. É muito engenhoso e o eletricista oficial do Corredor também. Aliás, foi dele a ideia de colocar a piscina na festa de carnaval, GÊNIO!
É a incógnita do Corredor 14. Há rumores de pessoas que nunca sequer ouviram sua voz em ambiente público. Brincadeiras à parte. Ele é misterioso por ser muito calado e reservado, mas uma consequência disso é ser muito observador e isso reflete na produção artística dele. Uma produção em que ele consegue extrair a qualidade mais ínfima de qualquer coisa, pessoa ou circunstância e transformar em algo surpreendente. Ser calado também reflete no cuidado com o qual ele apresenta suas posições, alguém que pensa muito antes de falar as coisas, às vezes deixando de dizer. Apesar de ser um pouco aéreo (quem sou eu pra criticar isso afinal), sempre procurou colaborar com o que fosse necessário dentro do ateliê para manter o espaço ativo. Aparenta ser um bom amigo também, alguém generoso, atento e aquele tipo de amigo que não vai saber demonstrar o seu afeto em palavras, mas com algumas atitudes discretas que ele vai tomar ao longo do tempo.

Desenvolvi essa carta aberta na intenção de assinalar o meu lugar nessa caminhada e me apresentar formalmente a você, independente de ser integrante do Corredor 14 ou não. No momento em que termino essa carta somos 7, número que nos conduziu até o ponto em que nos encontramos agora. Depois, não sei quantos vamos ser para dar continuidade a esse projeto que, concordamos todos, ainda não está no momento de encerrar.
Finalizo aqui deixando o meu muito obrigada a todos vocês com uma frase do Nuno Ramos, que complementa a minha intenção com isso tudo:
Para quem vai quase perder o mundo, é preciso antes assegurar-se de que ele continua lá [...]
(Nuno Ramos, Deriva)
Com carinho,
Karina
Pelotas, 24 de setembro de 2020.
Os desenhos acima foram todos feitos pela Pati.









































