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Lugar Úmido

por Martha Gomes de Freitas

  Corredor 14 é um espaço de arte. 

   Um corredor é um ambiente longo, mais justo que outros cômodos, onde nos demoramos um certo tempo nos deslocando. 

  Em sua disposição, este espaço é como uma linha entre dois pontos. A ação de percorrer um corredor pode ser descrita como uma forma de estar, desejando outro lugar.

  Karina, Renan, Daniel, Vicente, Patrícia, Marcelo e Rafa nos propõem este espaço singular, desejante. Nos convidam a um movimento balizado por uma determinada estrutura - poderia estar falando das paredes que constituem este lugar, arquitetonicamente o que é branco, contínuo e rígido - mas não se trata apenas disso. 

  Corredor 14 está em Pelotas. Estar nesta cidade é ter com a experiência da umidade, é conhecer sobre infiltrações, amolecimentos e mofos. Aqui a umidade é uma situação constituída, nos cabe saber como usá-la para extrair possibilidades daí. O branco acinzenta-se, o que é rígido esfarela-se -processos se instauram.

   Corredor 14 está em um Lugar úmido.

  Sua condição de espaço para deslocamento se une então a tudo que em certa medida favorece o brotar: o que é acontecimento. Eis este lugar de produção de arte em que as discussões e proposições nos convidam a mais. Onde há um sentido compartilhado da experiência nos oferecendo outras concepções e formatos para a arte: suas apresentações, suas interlocuções, suas proposições, sobretudo, sua necessidade de encontro com ela, com nós mesmos. 

 Estamos em um ateliê coletivo e, em paralelo a toda produção de seus integrantes, este espaço ainda nos propõe conversas, bancas, residências, mostras, eventos que abrem-se à cidade, convidam ao outro. 

  Pelotas tem, na Universidade Federal, no curso de Artes Visuais, um centro que reúne estudantes - artistas em formação, de diferentes cidades e estados do país. Por esta via, expectativas circulam e renovam a cidade na medida em que outros saberes são constituídos. Contudo, este núcleo de ações, de promoção destes saberes, fica mais complexo e rico quando encontra sentido na postura destes jovens artistas a colocarem-se em ação.

  Posicionados a partir de seus próprios desejos, eles estabelecem outros pontos em torno dos quais nos movemos. Em suas especificidades, articulam outras necessidades, individuais e coletivas, que passam assim a complementarem-se. 

 O movimento a que somos convidados, neste ambiente que não é só arquitetura, perpassa então uma estrutura orgânica conformada pelo que a ativa. Está nas relações que são propostas aqui nesta cidade, neste lugar úmido, impregnações que se percebem nas formas de troca. Ações que produzem consciência e que instauram possibilidades críticas ampliadas em suas reverberações.

  Estes jovens artistas, ao darem sentido ao lugar que escolheram, esta casa caracterizada por este cômodo longo, aproximam em suas escolhas, em suas posturas, em seus modos de ser e estar uma relação entre o espaço em si e uma presença no mundo: eles tornam-se corredores. Eles engendram uma caminhada que na analogia poderia estar se referindo a velocidade, mas que, mais do que isso, fundamentalmente ela diz da resistência.

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