
Entre córregos e correrias
por Carolina Clasen
Hoje o preâmbulo do céu anuncia o deságue e parece o clima favorável para dedicar-se aos territórios
alagadiços da arte contemporânea. Com afinidade nos campos teóricos que tratam a experiência em
espaços coletivos e públicos, adentrar um corredor imensurável foi um divisor de águas nos transbordamentos que pude experimentar até então. Não pelas suas dimensões arquitetônicas, mas pelas paisagens que escorrem a partir dali. Era vinte e quatro de maio e a porta correspondente ao número 14 da Rua Xavier Ferreira poderia, sem grandes saltos proporcionais, reapresentar a discussão da porta do Duchamp, inventada e construída em seu pequeno apartamento-atelier da Rua Larrey número 11. Isto porque o absurdo da porta e da quantidade delas que impõe a imponente privatização da casa, vem sendo desmanchada na integração dos espaços restam apenas os marcos, as vigas, a estrutura. E aí uma cidade que em outrora foi Satolep, definhou numa paisagem academicista da produção artística abrangendo pouco ou quase nada da manifestação da rua e da vida quando suas intensidades próprias já invadiam a arte contemporânea.
A dimensão artística do Corredor nunca foi o espaço expositivo em questão, mas trazer à tona as questões da exposição artística através da sua construção - arquitetônica, colaborativa, processual, poética.
Neste sentido também a porta que abre-fecha - o portão e, o portal - reposiciona o visitante no abrigo da obra e mais que isso, no abrigo da casa. Se a porta fechada do sistema artístico da cidade fez o público esperar, permanecer protegido no seu beiral e limpando os pés há três décadas no tapete da entrada, o corredor arregaça a porta e como um movimento de extrusão transforma seu
batente em corredor, redimensionando os chegares e acolhendo não apenas debates que vazavam a estrutura da produção produzida para e pela a instituição, mas produzindo paisagens de águas errantes, mapeando nascentes e correntezas, fazendo desembocadura em um oceano muito além do esgoto estético contemporâneo. O corredor nunca foi passagem, foi mergulho. O corredor porta a porta. Entre uma porta e outra, produzindo aberturas e abrigo.
Para a estrutura que corre não há outra intenção que a de fornecer elementos de aportar. Nesta acepção os vínculos realizados em um curto período de correrias, reapresenta as transfigurações da porta e não mais do que passa ou atravessam por ela, mas do que ela é capaz de abrir.
Escorredores, uni-vos!
Carolina Clasen; vinculada ao Programa USP Cidades e ao Patafísica, é educadora e