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Nas sombras as paredes suam

por Felipe Caldas

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  Quando começamos a estudar o campo artístico e suas relações, nós aprendemos sobre um sistema composto de diversos agentes que ocupam posições distintas e que competem pelos lugares de visibilidade e poder, assim, falamos das instituições museológicas, das fundações, das galerias comerciais, da universidade, das casas de leilão, da crítica de arte, dos colecionadores, dos curadores, dos artistas, dos produtores, dos arte-educadores, dos conselheiros institucionais de coleções privadas e públicas, de toda uma gama de personagens que atuam no jogo contemporâneo da arte.  De Pierre Bourdieu, Julian Stallabrass, Anne Cauquelin, Dom Thompson, Sarah Thornton, Maria Lúcia Bueno, Bruna Fetter, Ana Letícia Fialho, à crítica irônica de Pablo Helguera, entre outros autores, todos se debruçam a pensar, relatar, descrever, essas relações sociais em circuitos de ampla visibilidade, o mainstream da arte, seja internacional, seja nacional. Nas sombras, nos circuitos que estão longe dos centros artísticos e urbanos, em que não é verificável a presença de todos atores que comporiam um campo, que atuam em precariedade, como funcionam as relações sociais intermediadas pela produção artística? Nesses lugares e circuitos regionais, apresentam-se outros tipos de hierarquia, outros modos de pensar e de relacionar-se, que não necessariamente os outorgados pelos circuitos de ampla visibilidade e descritos pela maioria dos autores interessados nas relações sistêmicas da arte. Certamente, esses circuitos conectam-se com outros e mesmo com aqueles que contam com grande legitimidade, alguns agentes podem até circular, mas, o local impõem-se e guarda particularidades consigo. De modo pragmático, só existe o local, seja em Nova Iorque, seja em Pelotas, o internacional é uma instância, é uma possibilidade, que em alguns locais é mais recorrente que em outros.

  1. Quando cheguei em Pelotas pela primeira vez, em 2014, para ser professor substituto na UFPel, e, posteriormente, em 2018 e 2019, tinha profunda dificuldade de entender os pelotenses e sua mania de achar que a cidade era a Paris brasileira. Os superlativos e adjetivos sobre a cidade eram usados em larga escala, enquanto eu só via precariedade, prédios ruindo, umidade e cheiro de mofo por tudo. Uma população que mantinha em seu imaginário o apogeu de um passado que não existe mais.  Perguntava-me: “que torpeza é essa? Isso aqui é horrível, com exceção de algumas construções do Centro Histórico.”  Com o tempo, fui, literalmente, aprendendo a ver beleza e graça na umidade, na precariedade, no perambular pelo centro da cidade. Como em nenhum outro lugar que estive por mais de um mês eu compreendi o ditado: “em terra de cego, quem tem um olho só é rei.”. Comparando com tudo que existe em seu redor, em termos de cidade, de eloquência arquitetônica, de plano urbano, de vida cultural, Pelotas é ótima. Quando se tem poucas opções, o pouco que se tem, torna-se grandioso, relevante e as menores ações podem alcançar uma reverberação significativa na vida das pessoas e do local que habitam. Nesse sentido, a universidade, com todas as dificuldades, é um oásis e um suspiro de esperança naquele contexto. Lá, tive muitos discentes e fiz amigos, mudei meu modo de pensar ao relacionar-me com aqueles estudantes e com os demais docentes. Eu ensinava conteúdos, falava de autores e aprendia sobre a vida, sobre o outro, construí laços afetivos, ao mesmo tempo, aqui e acolá, irritava-me com a displicência e a falta da seriedade necessária para a formação. Foi nesse contexto que conheci os artistas que compõem o Corredor 14, em 2018, e, em seguida, o espaço físico. 

  2. Em ambientes institucionalmente frágeis, a economia de afetos sobrepõe-se a qualquer outro critério. O discernimento crítico, quando existe, fica nos corredores, nas mesas de bares, nas conversas entre amigos e ganha contornos de intriga e transparece em possíveis convites, breves escolhas, que, geralmente, envolvem um pequeno retorno simbólico. Quando não há mercado de compra e venda efetivo, não há um amplo público, não há colecionadores, não há jornalismo cultural ou grande visibilidade, aliado à existência de pouquíssimos espaços de legitimação e exibição, juntamente com um corpo de produtores restrito, ou seja, quando inexiste uma circulação ampla, as relações de afeto, são fundamentais em um processo de cooperação e, igualmente, de competição entre os grupos. Esse aspecto é observável em circuitos de grande visibilidade, mas esse ponto é elevado exponencialmente nessas circunstâncias, pois, mesmo na precariedade, existe competição devido aos recursos e espaços serem extremamente limitados.  Em Pelotas, a universidade concentra os agentes das artes visuais e, praticamente, tudo gira em torno dela ou a partir dela. O Corredor 14 é uma decorrência desse processo. O Corredor é um lugar de liberdade e experimentação, de afeto e de construção de uma rede possível de relacionamentos, autogestionado, mas interdependente do contexto da universidade, ao mesmo tempo, livre e um lugar de pulsão da arte contemporânea naqueles rincões em estado de umidade contínua. A sua dimensão e relevância social são potencializadas no contexto em que se encontra, mas não se restringe ao local, visa a lançar informação e a compor uma paisagem mais ampla.

   Quando penso a respeito do espaço e dos artistas que o compõem, acredito que eles respondem a uma questão que pode ser colocada em qualquer canto deste país: como ingressar no circuito de arte contemporânea no Brasil? Eles dizem-nos o seguinte com suas ações: Se aqui não é o centro do país, nós fazemos daqui o nosso trampolim. Se as instituições reconhecidas não nos aceitam, o mercado de compra e venda não nos incorpora, tornamo-nos nós mesmos a instituição e fundamos o nosso mercado, não, necessariamente, para negar o já existente, mas para ocuparmos um lugar na paisagem visível. Se determinados espaços regulam a entrada, estabelecem protocolos, nós fundamos o nosso espaço com nossas próprias regras. Se não há lugar, nós fundamos o lugar, se não há reconhecimento, nós reconhecemo-nos, se não há dinheiro, existe afeto, vontade, suor e sonhos, mas não fazemos para as ações ficarem entre nós, e sim, para nos projetar ao mundo. 

     A cada ação do grupo, a cada inscrição em editais, a cada convite que fazem, a cada projeto e exposição que lançam, eles afirmam isso.

   A entrada no mundo da arte não ocorre através de um convite, mas por meio de um pé na porta, no entanto, não de modo ingênuo e, sim, de forma estratégica e tática. Estratégica no sentido de vislumbrarem, mesmo com determinada incerteza, algo a longo prazo, através de protocolos já conhecidos de ação, de outros artistas e espaços, que acabam por reproduzir. De modo tático, pois conscientes que o local, a cidade e sua realidade financeira não são, necessariamente, favoráveis, eles atuam no terreno do outro e na imprevisibilidade diária. Esses modos de fazer interligam-se e entrelaçam-se. Sabem que é necessário construir uma rede de relações, compreender os protocolos de agenciamento, ter clareza que o trabalho do artista, na contemporaneidade, não se encerra no ateliê ou na feitura de algo, pois o que de fato construímos diariamente é a nós mesmos. Essa consciência do agir e do ser artista está na conduta dos artistas do Corredor 14. Está em cada aproximação, sobretudo, sabedores da economia de afetos e, ao aproximar e aproximar-se de determinados agentes, vão construindo, ao menos localmente, visibilidade e reconhecimento de suas ações, ao mesmo tempo, formando-se enquanto artistas contemporâneos, gerando uma imagem pública de si e do espaço.

 A construção de uma imagem pública, parte de autoafirmação, simultaneamente, pretende atingir o outro, visa ao reconhecimento do outro, da atividade e do rótulo artista. Assim como, conecta-se à necessidade de circulação, ao menos, em um determinado circuito. A compreensão da existência de um circuito envolve a possibilidade de um deslocar-se de um ponto ao outro. Os circuitos das artes visuais possuem pontos de conexão com outros circuitos, formando uma grande rede e um sistema, essa rede possui barreiras, interrupções, protocolos de acesso. Quanto menor o circuito, mais rápido é percorrê-lo e mais rápido constrói-se uma imagem pública reconhecível, mas que não tem, necessariamente, validade em outro circuito e com outras instâncias de legitimação. Nesse sentido e devido às características da cidade de Pelotas, do circuito local, um espaço autogestionado, como o Corredor 14, ganha contornos de instituição e espaço de legitimação, ao mesmo tempo, plataforma para tentar ingressar em circuitos mais extensos e com outros patamares de visibilidade e reconhecimento. Assim, a imagem pública do espaço é uma imagem que tem aspectos de instituição e, em uma microesfera que é a cidade, a capacidade de reconhecimento e legitimação de um jovem artista naquele contexto e dentro do corpo de discentes da Universidade Federal de Pelotas é enorme.  Fazem isso como? Atraindo, juntando, aproximando pessoas do espaço e dos artistas, dos colegas aos professores da universidade e de agentes que atuam em outros circuitos, em um processo de uma economia de afetos e de trocas simbólicas, como diria Pierre Bourdieu.

 O sucesso ou não sucesso da empreitada está interligado ao preenchimento de lacunas e ao exercício de papéis, praticamente, inexistentes no contexto de sua inserção, mas não de qualquer modo, as ações estão ligadas às discussões contemporâneas, realizadas seguindo um conjunto de atos reconhecíveis e legitimados em outros circuitos, inclusive no internacional, sem esquecermos os próprios trabalhos individuais dos artistas. Esse conjunto de ações é capaz de atrair agentes e despertar afinidades e empatia, ou seja, os interlocutores, não se aproximam ou permanecem apenas pelo belo sorriso dos artistas, mas, sim, pela dimensão poética, intelectual e profissional.

  3. Esse espaço e seus artistas exercem uma dimensão política e talvez pedagógica.  Atualizam, assim como outros espaços autogestionados, não uma  visão utópica do artista enquanto um trabalhador da cultura em prol da sociedade em uma espécie de subversão econômica, poética, intelectual, por meio de sua inserção no âmago do aparelho produtivo, como uma boa parte dos artistas e intelectuais durante o século XX acreditaram ser a função da arte,  pois essa visão universalista do artista já se encontra superada.  Em uma dimensão fragmentada, plural e em fluxo, em que conceitos centros e periferias também possuem mobilidade, dentro um capitalismo flexível, em que o artista tornou-se arquétipo de trabalhador, aliado a uma construção identitária móvel, todo argumento geral carece de sentido, o que nos resta são as microutopias e o exercício de micropolíticas em nosso cotidiano, nas ações que instalam modos de ver, ser e estar, naquele lugar e naquele contexto.  Pois, o que é crítico, o que leva à crise, que provoca outros modos de ser, de ver, de estar em um local pode não ser em outro. Nesse sentido, o Corredor 14, no contexto pelotense, cumpre um papel que vai além de um ateliê e de um espaço de exibição, ou de plataforma de lançamento de artistas. Ele tem uma função social e, até mesmo, pedagógica para a cidade, que pouco espaço tem para as manifestações da arte contemporânea fora do âmbito universitário, simultaneamente, areja e provoca a própria universidade e seus protocolos disciplinares. 

   O contingente político e crítico da arte não está, exclusivamente, no trabalho artístico, na obra, mas na ação de trabalhar, no fazer, na insônia, no suor, na roda de amigos e no vinho compartilhado, na gargalhada em uma abertura de exposição, no mover-se dos corpos, ou em uma fala pública. Um fazer que, ao fazer, transforma a si mesmo e ao lugar em que habita, um fazer movido por intenções artísticas, mas que, necessariamente, não é arte, é vida.

  Ao trabalhar, ao instalarem e manterem um espaço privado, mas de dimensão pública, ao percorrem com seus corpos a cidade, ao jogarem futebol na praça ao mesmo tempo em que articulam pesquisa artística, falas, editais, aproximações contribuem para uma escultura social local e exercem um papel político, no sentido de abrirem a possibilidade de vislumbrar outro mundo, ou mesmo, o mundo que não chega ao local.

  4. Naquela casa, espaço de exibição, ateliê, plataforma, lugar de encontro entre outras possibilidades, os sonhos projetam-se pelas paredes, contornam espaços, escorregam por corpos, assobiam ao vento, gotejam em lágrimas e suor. Não podemos esquecer que esse espaço é mantido por discentes do curso de Artes Visuais da UFPel, que são “jovens” com uma vida e uma carreira em processo de construção.

      Entre o sonho e a sobrevivência, só existe resiliência. Sonhar é imaginar, projetar, desejar, fantasiar, ou, quem sabe, vislumbrar o futuro. Da juventude à velhice, os sonhos acompanham-nos, mas, sobretudo, na juventude, nas escolhas do presente que se lançam ao futuro, esses multiplicam-se como ervas daninhas e são fundamentais nas escolhas, nos trajetos, na construção identitária e no acordar diariamente. Todavia, a vida nunca é como no sonho, mesmo quando atingimos a posição outrora sonhada, o lugar imaginado, o objeto de desejo, a realidade é diferente daquilo que projetamos e, mais ainda, daquilo que ouvimos dizer. 

   Quando os estudantes que compõem o Corredor 14 formarem-se na universidade, o que ocorrerá com o espaço? Provavelmente, mais cedo ou mais tarde, vai acabar, ao menos fisicamente, como a vida. O desafio não é, exclusivamente, chegar ao lugar sonhado, ambicionado, mas entender, com toda a intensidade, que o hoje é fundamental para o amanhã. E mais, que o amanhã pode não chegar e tudo que nos resta é um instante do hoje, mas um hoje que não se encerra em si, mas projeta-se para o amanhã ancorado no ontem. Pois, caso encerrássemo-nos em nós mesmos, só teríamos finitude. 

       Vivemos em 2020, um momento de pandemia e o que mais ouvimos falar é: “vai passar!”. Muitos desejam mais que em outrora um amanhã, mas esquecem de viver o agora em toda sua complexidade e dificuldade, que o amanhã pós-pandemia, o desejo de um outro mundo, outras relações econômicas e sociais sonhadas nesse período, só será possível se vivermos o agora, chorarmos as dezenas de milhares de mortes, enfrentarmos o dia a dia de reclusão para alguns, enquanto a massa trabalhadora arrisca suas vidas pelo pão de cada dia. Enfrentarmos a torpeza intelectual da elite; a desconfiança e o desrespeito à ciência, à pesquisa, à arte e à universidade de boa parte dos brasileiros; além de pensarmos e discutirmos o nosso papel enquanto cidadãos e artistas.

     Os sonhos e a experiência vivenciada e compartilhada pelos, e com, os artistas que compõem o Corredor 14 necessitam ser vividos hoje, para que eles e todos nós possamos ter um amanhã, mesmo que seja nas sombras. O que é relevante não está, necessariamente, nos holofotes da arte contemporânea brasileira, nos curadores e nos artistas badalados, nas aberturas vips, nos projetos de grandes instituições nacionais, pois boa parte desses trabalhos só servem para evidenciar e promover seus autores. A mudança, a dimensão política do trabalhar, a micropolítica e a arte como meio de fazer a diferença na vida de alguém está, na grande maioria das vezes, na invisibilidade, no sorrir, no chorar, no silêncio ou no grito no meio da solidão. É angustiante para a maioria de nós, artistas e agentes do campo da arte, termos consciência que estamos condenados a uma vida nas sombras, pois aprendemos que somente o sol pode aquecer-nos, no entanto, é nas sombras que a arte salva vidas.

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