
Corredor 14, zona do Porto,
Pelotas na rota de arte internacional brasileira,
por Renata Requião
Daniel Higa, Karina Nascimento, Marcelo Amaral, Patrícia dos Santos, Rafaela Ribeiro, Renan Soares, Vicente Lima.
Abril, maio de 2018.
Sete artistas em formação, alunos do Centro de Artes, da UFPel, estudantes do Bacharelado em Artes Visuais, alugam uma pequena casa na Zona do Porto de Pelotas. Corredor 14 é o nome com que passam a chamar o lugar, um Ateliê de trabalho. A casa, tipicamente de planta portuguesa, tímida por conta da malha urbana em que está inserida, repete modos aos quais nos habituamos em Pelotas. A partir da primeira sala, o corredor se alonga da porta da frente aos fundos, se abrindo em cômodos até encontrar o respiro da pequena área interna, e por fim se alargar renovado na última peça antes do pátio. É curioso como encontramos a mesma planta portuguesa nas casas grandes, de porão alto, nas zonas mais centrais da cidade. Mesmo os casarões em volta da Praça Central, antiga Praça da República, guardam a mesma lógica que, por espelhada, e assim duplicada, faz ao mundo parecerem mais imponentes (como se sabe, nas cidades, vivemos numa espécie de parquinho de diversões à moda antiga, a barraca dos espelhos oferece, em seus reflexos, estranhas configurações para experimentarmos nossos corpos).
Esses sete jovens artistas trabalham com materiais inusitados para a tradição das Artes Visuais (apesar de a tinta, o grafite, o papel, a pedra, estarem ali). Seus materiais são inusitados por, no mais das vezes, serem banais, próximos de nosso cotidiano, como uma corda, um prego, uma cadeira de praia, por exemplo. São pesquisadores no campo das Artes Visuais Contemporâneas (AVC). Isso implica em descobrirem o que inventam, entenderem o que fazem, darem nome a suas obras, e naquilo com que as compõem reconhecerem valores também inusitados, mas que mal pronunciados já nos parecem evidentes. Eles precisam identificar seus sempre peculiares processos. Aprendem assim a falar de seus trabalhos, aprendem a falar com seus trabalhos. A pesquisa se dá num misto de formação de certa habilidade (a domesticação do corpo para aquilo que estão inventando ao fazer), passa pelo reconhecimento do input biográfico, afetivo (aquilo que na vida besta ao tocar o sujeito redimensiona aspectos do mundo – situação extremamente potente, mas que por si só não garante a passagem à criação), e se deixa problematizar pelos trabalhos dos outros artistas com os quais se conecta (e ainda pela produção de áreas afins). Eles, todos os sete, sabem disso. Por isso, trabalham duro, trabalham muito, e insistem.
Na produção do Daniel Higa, cordas e cores e bambus (ou estacas?), estruturas para um teto frágil, mas suficiente, buscam o sol; da Karina Nascimento, um grande retângulo de plástico transparente, delimitado por moldura preta, fosca (não é um espelho!), a linha do relevo do corpo (tombado!) registrada em tinta preta, uma paisagem humana emerge dali; do Marcelo Luz Amaral, cadeiras de praia, o algodão do suporte clássico da pintura (tudo de palidez hospitalar!), no pequeno quadro em frente, as linhas de cor sobre o branco (as cadeiras sob o sol!), a nova paleta oferecida, cuja intensidade de coisa plástica lembra os efeitos de cores do artista Palatnik; na produção da Pati Patrícia dos Santos Maiô, cordas e cabos náuticos, roldanas (em outra exposição, no Hall da Biblioteca da UFPel, vemos garrafas e madeiras com cores intensas já desbotadas, restos de cascos de barcos – que Pelotas é quase uma ilha, rodeada de água, cidade cuja umidade a tudo define, como nos faz ver nosso bardo Vitor Ramil!); da Rafaela Ribeiro, uma sucessão de folhas, quase uma gaita, sob a luz que incide de topo, sustentadas por longos pregos que descobrimos serem grafites (nas Artes Visuais Contemporâneas, os materiais e as coisas nunca deixam de serem eles mesmos, para serem outra coisa também); do Renan Soares, um bloco de parafina, material deslizante, um pesado pano preto, fios e pequenas roldanas (tudo aqui se move lentamente, no passar das horas); do Vicente Lima, três pedaços de mármore (eis aqui, um material “clássico”, mas será?!), cortados como tábuas de madeira, arriscam seu limite no incisivo ângulo dos cantos, são sobrepostos e articulados através de um longo prego, que passa por um furo.
Cada um dos sete jovens artistas discute (discussão civilizada, um convite à conversa, um acionamento do pensamento), cada um a seu modo propõe questões relacionadas às diversas linguagens das Artes: o desenho, o tipo de incisão, luz e sombra, suportes, a representação do corpo, entintamento, pigmentos, gesto pictórico, a geometrização do mundo... A partir do específico do trabalho de cada um, e de sua experiência individual, nos deparamos com questões importantes às Artes Visuais. E com questões vinculadas, repito, a outros Campos do Saber. Através delas conseguimos pensar sobre nós mesmos e sobre nossa experiência sobre a terra. Os problemas colocados ampliam nossa percepção do Campo das Artes Visuais e nossa compreensão de mundo. Típico da produção das Artes Visuais Contemporâneas: nos fazer ver, indicar as coisas para nós.
A Arte, como Campo do Saber, acompanha o homem desde seus primórdios, desde sempre extravasamos nossa humanidade pela Arte. Com esta exposição autoral e singela, num recanto meio à margem da cidade, se fortalece a perspectiva de que, na produção das Artes Visuais Contemporâneas (AVC), o homem que tentamos hoje ser encontra sua ágora civilizatória. Frente à produção desses sete jovens “artistas-autores” temos a chance de falar a língua do outro e de tentarmos ser entendidos.
Renata Azevedo Requião, profª UFPel – CeArtes, PPG – Artes Visuais








