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A propósito de um Corredor 14

por Douglas Gadelha Sá

  Das maneiras pelas quais frequentei o ateliê de arte ‘Corredor 14’, percebo hoje tamanha imbricação que foi frequenta-lo durante o meu processo de formação na faculdade de Filosofia. Da mesma forma, ao contrário do que se pensa, foi frequente a existência de ateliês de arte na cidade de Pelotas. No ano de 2018, uma das estudantes que viria a compor o grupo de artistas, Karina Nascimento, comentava comigo à esta questão afirmando que a futura intenção de inaugurar um espaço de Arte, que fosse tanto ateliê enquanto um espaço de produção, quanto um lugar que convidasse o público através de exposições, oficinas e conversas, marcaria uma espécie de singularidade na cena artística e cultural pelotense. Certamente livre de pretensões, a artista corria até um certo risco de competir com a extinta sala do Cine Capitólio, que em 2018 comemorava 90 anos de inauguração, mas ao mesmo tempo, Karina já percebia que o Corredor 14 trazia em suas costas um espírito e uma marca que a história encarregou à cidade de Pelotas: a de cultivar espaços de Arte e Cultura. Bom... se é assim, então tudo isto parece indicar que este ateliê já faz parte, atualmente, da história artística de Pelotas.

   Seria insuficiente enumerar as diversas ações, exposições, instalações e eventos promovidos pelo ateliê. Acontecimentos por vezes acabam situando uma determinada importância nos sítios da cidade. Já o nome, Corredor 14, é típico de uma conversa de numerologia. É assim: “eu pego uma característica física, junto com uma indicação numérica (convencional ou arbitrária), misturo, joga-se um pouco de suco poético e voilá: casa + número ÷ disposição arquitetônica + sete artistas x 2 = Corredor 14”. Além do cabalismo, confesso que demorei pra entender esta equação, afinal de contas, muito da educação do meu olhar se desenvolveu junto com o nascimento, infância, rebeldia e maturidade do próprio ateliê.

   Ah! os artistas... pois é, sete artistas em formação, vindos de uma mesma turma do Centro de Artes. Uma formação um tanto... convencional? Mais ou menos. O ócio criativo que as férias produzem é espetacular. Recordo que no verão de 2018, começou toda esta odisseia de criar o Corredor. E era um típico encontro fora do comum pra Pelotas entre paulistas e gaúchos. Entre o estado do Rio Grande do Sul e São Paulo parece haver uma rota da arte. Foi de cá pra lá Gotuzzo, Getúlio, Glória Menezes, Veríssimo... veio de lá pra cá: Karina, Renan, Vicente e Daniel. Novamente, não há nenhuma pretensão de comparação, mas sim, daquele espírito que Pelotas engendrou na cultura. É imbuído deste espírito que os setes artistas: Daniel Higa, Karina Nascimento, Marcelo Amaral, Patrícia dos Santos, Rafa, Renan Soares e Vicente Lima fundam o ateliê Corredor (7+7 = 14) em Pelotas. A nova rota da arte, oxigenada em Pelotas mais uma vez por um grupo de estudantes que decidem produzir Arte Contemporânea (pois lá nas décadas anteriores, havia cada qual com o seu ‘contemporâneo’) vai encontrar vazão nos variados processos de criação destes sete artistas.

   Todos eles jovens, tanto quanto eu -quiçá sempre tivemos as mesmas idades- procuravam uma estrutura em que pudessem explorar individualmente suas obras. A casa em questão, tipicamente portuguesa, possui um corredor que orienta a experiência do lugar. Esta disposição da planta comum à casas portuguesas servia, na virada do século XIX para o XX justamente como um impedimento na produção de subjetividade dos residentes. A subversão do espaço já ocorria na própria intenção que os sete artistas tiveram de transforma-lo em um lugar de arte. As paredes, que logo foram pintadas de branco, já indicava uma certa renovação do espaço, mas sendo ao mesmo tempo, uma espécie de tábula em branco para que cada um a pintasse e ocupasse em seus lugares individualmente. O tal corredor surge então como este lugar comum, de possibilitar coletivamente o trânsito dos sete, as futuras parcerias e afinidades que iam surgindo aos poucos.

   O constante paralelo entre os sete artistas, conseguiu produzir o primeiro rito iniciático do Corredor 14: a exposição “7 em sala” com sua 1ª edição em maio de 2018. Aclamada pelo público, aguardada por muitos estudantes de artes e humanidades, e inclusive motivo de texto publicado na mesma semana no jornal Diário Popular, escrito pela professora de artes Renata Requião da UFPel. O grande tema da exposição foi o processo, não de inquisição kafkiana, mas por uma busca em apresentar a intermitência poética de cada artista em suas produções.

   Resta perguntar: qual é a função do Corredor? Seria passagem, caminho, processo ou até mesmo passarela? Um único corredor, pisado por mil pés, longínquos, sedentos por arte, que se atravessa entre os dois extremos da casa e levados a Cômodos, contidos num universo particular de cada artista.... As obras de Karina Nascimento (Corpohorizonte, 2017 - 1ª edição do “7 em sala”) mais de uma vez foram instaladas no corredor, as de Rafa (Projeto para Armadilha, 2018 - 2ª edição do “7 em Sala”) também, estavam tão bem situadas... E o meu olhar que sempre esteve nesta mudança, entre corredor e cômodos, formou-se diante destas obras. Recebi o convite para escrever este, que fosse um texto que tivesse a voz de um relato. Acontece que todo relato, seja mítico ou não, busca sempre uma origem cartográfica das relações, ou seja, fazer das próprias descrições motivos para reflexões.

 

Douglas Gadelha Sá

 

Cubatão, 13 de agosto de 2020.

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