
Publicação da Turma 1º ciclo







Sobre conchas, cascas e ninhos
Monique Huerta
“O tempo descontextualiza o trauma. O trauma descontextualizado em uma pessoa parece personalidade. O trauma descontextualizado em uma família parece traços de família. O trauma descontextualizado em um povo parece cultura.”
Resmaa Menakem
Ninhos são aquilo que construímos para nos proteger. Como defesa, mas também como estratégia: é este lugar de intimidade que acessamos para nos fortalecer em um mundo tão pontudo. Há algo além do significado de proteção em seu mais puro estado. A sua subjetividade se constrói em suas entranhas, ensimesmado por natureza. Dentro de sua abstração, adentramos caminhos que percorrem memórias de intimidade.
Proteção é uma ferramenta entre o ataque e a defesa, um lugar de passivo-agressividade utópico. Busco explorar os mecanismos que estes signos utilizam para criar limites, proteção, agressão e ilusões de barreira. O ninho é o lugar natural da função de habitar, “voltar” fisicamente ao lugar onde habitamos é também uma ação metafórica para um “regressar” a este mundo onírico.
O ninho talvez seja uma metáfora para nossa existência mais pura e íntima, que não é fortalecida apenas de forma individual, mas coletivamente. Uma visão onírica de um estado de criação, um retorno a um lugar inocente. Um estado que foi tomado de mim em minha infância, por isso sua existência me vem como num sonho, num espaço tempo que não é aqui e talvez seja no futuro. Porque construí com aqueles que amo e vivi espaços de crescimento e acolhimento, eu acredito que somos mais fortes quando nos cuidamos coletivamente, mesmo inseridos dentro de todas as camadas capito-apocalítipticas.
Mostrar nossas feridas e cicatrizes é como nos despir e colocar à mostra tudo que é feio, desagradável, traumático e tudo que nos fizeram acreditar que era somente isso que nos definia. A sociedade cis patriarcal racista que vivemos é corroída por padrões de comportamento e consumo ausentes de essência, afetando diretamente
a maneira como vivenciamos o afeto, as dores, e para quem elas são direcionadas.
Penetrar a fundo em nossas memórias doloridas é também lembrar daquilo que não nos pertence, daquilo que é fruto de uma estrutura emaranhada e errática. As feridas não são de nenhuma forma uma definição simplista de identidade, mas permeiam a construção da subjetividade enquanto nos colocamos em um mundo que sabe muito bem a quem a violência é direcionada. Olhar para as cicatrizes pelo o que elas são e nos fortalecer ao compartilhar vivências.
Pensando em espaços seguros, retomo alguns de seus signos: conchas, cestas, ninhos. A proteção implícita que a forma da cavidade transmite pode ser pensada como um espaço de encaixe corporal, mas também como um lugar de refúgio e esconderijo. A busca pelo lugar do íntimo me intriga, pelo micro universo. Utilizo cantos de 90 graus pois acredito que estes lugares acumulam energia: tantas são as memórias de intimidade acolhidas pelo canto. Como diz Bachelard, “só habita com intensidade aquele que soube se encolher”. A ficção da escultura existe de forma quase teatral, como um choque entre mundos. Essas criaturas fictícias se esgueiram pelos cantos, procurando lugares de encaixe.
O medo nos foi implantado desde cedo em nossas vivências e primeiros contatos com a violência. Construir ninhos não é estar à mercê do medo, mas ter autonomia para preservar os espaços subjetivos que nunca deverão ser tocados pelas camadas e camadas de abuso diário. Proteger nossa sensibilidade e não deixá-la ser fagocitada pelo inconsciente colonial capitalístico.
No entanto, há momentos em que existir somente dentro de um casulo é desgastante e sufocante. Que estes espaços não sejam a única possibilidade de nutrir subjetividades, porque isso é também apequenar as existências e conte-las em suas redomas. Existir enclausurado em sua casca é paradoxalmente um castigo. Os ovos se chocam, os pássaros rompem suas cascas para adentrar o mundo. Mais tarde, os próprios ninhos em que os ovos tão confortavelmente se acolhiam agora parecem desconfortáveis e redutíveis. O engraçado deste símbolo é que ele é somente e para sempre uma casa temporária de incubação. E por isso tão necessária: nos lembra que até o nutrir é momentâneo para que algo futuramente possa se romper.
E que bonito é imaginar que todos os pássaros um dia aprendem a voar e caem de seus ninhos.
“O pássaro, diz Michelet, é um operário desprovido de qualquer ferramenta. Não tem “nem a mão do esquilo, nem o dente do castor”.
“A ferramenta, na verdade, é o próprio corpo do pássaro, é o seu peito com o qual ele aperta e comprime os materiais até torná-los absolutamente dóceis, até mistura-los, sujeita-los à obra em geral.” E Michelet sugere a casa construída pelo corpo, para o corpo, assumindo sua forma pelo interior, como uma concha, numa
intimidade que trabalha fisicamente. É o interior do ninho que impõe sua forma. “No interior, o instrumento que impõe ao ninho a forma circular não é senão o corpo do pássaro. É virando-se constantemente e recalcando as paredes de todos os lados que ele consegue formar esse círculo.” A fêmea, um torno vivo, escava sua casa. O macho traz do exterior materiais heteróclitos, vergônteas sólidas. Tudo isso, por uma pressão ativa, a fêmea transforma em feltro.
E Michelet continua: “ A casa é a própria pessoa, sua forma e seu esforço mais imediato; eu diria, seu sofrimento. O resultado só é obtido pela pressão constantemente repetida do peito. Não há um só desses caminhos que, para firmar e conservar a curvatura do ninho, não tenha sido milhares de vezes pressionado pelo seio, pelo
coração, certamente perturbando a respiração, talvez com palpitação.”
Que inverossímil inversão de imagens! O seio não é aqui gerado pelo embrião? Tudo é impulso interno, intimidade fisicamente dominadora. O ninho é um fruto que incha, que se comprime contra
seus limites.”
(BACHELARD, Gaston. Poética do espaço)





Vão: entre a paisagem e o abstrato
Eduardo Toledo
Pintar se torna um espaço seguro de um período caótico.
As primeiras camadas mais líquidas com menos pigmento cobrem toda a extensão da tela compondo o fundo, sempre dos tons mais claros para os mais escuros. Conforme a tela ganha certa quantidade de matéria, a tinta é depositada com mais carga e menos óleo. O quadro começa a ganhar peso e densidade enquanto o fundo ainda está úmido, sendo absorvido aos poucos pelo tecido e se acomodando em áreas densas. As cores se misturam dentro da composição, formando outros tons, outras camadas, se construindo aos poucos de forma acidental e não planejada.

Renan Soares
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Ela observava atentamente de sua janela, vendo a crua sumir. Invadida por um êxtase hesitante, temeu não vê-la emergir novamente. Adormeceu sobre seus braços cruzados, como uma fraca sentinela. Suando o corpo ergueu a cabeça e sentiu aquecer, o calor vinha como ondas, feito enxurrada se derramando sobre a superfície. O brilho refletia em sua testa. Do couro continuava jorrando sal em matéria rala. Ainda assim, resistiu em se retirar, permaneceu na janela, perplexa. Se conteve ao olhar para o interior de seu apartamento, viu a ofuscante se esgueirando e escorrendo por toda brecha, inundando seu quarto e vazando pela borda das coisas, agora tudo ali se tornava úmido, quente e visível.
